sexta-feira, junho 23, 2006

28- COPA DO MUNDO

Em 1958, com apenas 6 anos de idade, senti pela primeira vez o que é ser Campeão Mundial de Futebol no país do futebol.
A única coisa que me lembro, é a de estar brincando na rua – morava numa pequena rua sem saída na periferia de São Paulo – e ver um avião sobrevoar baixo a cidade, e as pessoas acenarem dizendo que eram os campeões mundiais que chegavam da Europa...
Em 1962, tentei ouvir alguns jogos, mas as rádios de ondas curtas eram horríveis de se ouvir, não tinha paciência e conformei-me em ver os documentários no cinema. Em 1966... esqueça 1966!!!
Mas em 1970... Ahhhhh!!! 1970 foi outra coisa. Inesquecível, inebriante, contagiante, foi tudo de bom. E eu, com 18 anos, bebi os jogos do Brasil pelos olhos e ouvidos como se bebesse o néctar dos deuses. E era.

segunda-feira, junho 19, 2006

27- CAPRIOTTI

A vida universitária é espetacular... pena que não percebamos isso quando somos estudantes. No meu caso, vários fatores contribuíram para torná-la inesquecível.
Confesso que o primeiro ano foi meio assustador. Ambiente, colegas, matérias, toda a minha vida revirada. A ponto de chegar para o meu pai, no fim do ano e dizer que se as coisas não melhorassem, iria desistir do curso.
Mas melhoraram. E muito. Por um lado, depois de familiarizado, a cidade universitária tornava-se um imenso campo de vivências novas e excitantes: shows, esportes, exposições, as próprias aulas, palestras, movimentos: tudo enriquecia, tudo absorvia, especialmente porque passava o dia no campus.
Fundamental para essa mudança de perspectiva sobre o curso e a vida no campus foi fazer parte da ABU (Aliança Bíblica Universitária). Proporcionou-me uma nova visão do meu papel ali na USP, uma nova visão do meu papel social (junto com a combativa, energética e crítica atuação política dos meus colegas de curso – a Geologia). Equilibrando-me entre o cristianismo engajado da ABU e o marxismo utópico da Geo, fui imensamente desafiado, encorajado, e preparado para a vida. Sem pieguismo, nem ceticismo exacerbados. Nem “penteca”, nem “libelu”.
O ponto alto de meu engajamento na ABU se deu com a descoberta do compromisso político e social cristão com os pobres. A organização de um projeto social composto por estudantes universitários para apoiar a comunidade carente de Capriotti (em Carapicuíba) foi o aprendizado prático e afetivo importante. Hoje mesmo, 30 anos depois, o projeto ainda existe, e pessoas que fizeram parte da primeira equipe universitária ainda são parte dele. E lembrar dele é perceber que ao estender a mão em solidariedade ao próximo, eu é que fui o mais beneficiado, com lembranças de pessoas e fatos que marcaram minha vida.
Sobre estes, escreverei depois.

quinta-feira, junho 08, 2006

26- DENTE QUEBRADO

Meus primos e eu gostávamos, aos 8, 9 anos de idade, de brincar de “luta” na imensa cama de minha avó. Sempre acabava com alguém machucando alguém, briga, choro, estas coisas de criança.
Pois bem, lá estávamos nós, brincando, quando um empurrão mais forte me derrubou dentro do guarda-roupa da avó, cuja porta estava aberta. Saí bufando e meu primo, esperto, escapuliu correndo pela casa, comigo no seu calcanhar. Logo ao entrar na cozinha, alcancei-o com braço em suas costas. Esse impulso, aliado à velocidade com que ele corria, foi o suficiente para que se esparramasse no chão, de boca, quebrando o dente da frente.
Na época não havia conserto, e por muitos anos seu sorriso me lembrava o que eu havia feito. Quando surgiu a tecnologia de reparadora, o alívio foi para ambos: ele pode voltar a sorrir sem problemas, e eu voltei a vê-lo sem remorso.

segunda-feira, junho 05, 2006

25- MACNUT

Nos idos da década de 80, comecei a me interessar pelo mundo dos computadores. Anunciavam o breve surgimento de micro-computadores, pequenos o suficiente para se ter no escritório, potentes o bastante para aposentar a calculadora, o arquivo de gavetas e a máquina de escrever. Quando finalmente surgiram, comecei a ler tudo o que podia sobre eles, e até comprei livros. Logo, o Basic, o DOS, o C:, o Lótus, e o DBase começaram a fazer parte do meu mundo. Mas não o computador. Além de caros, necessitavam conhecimentos que eu não possuía e minhas atividades profissionais na época não exigiam coisa tão sofisticada.No fim da década fui aos EUA a trabalho e tive contato com o Macintosh da Apple, o “computador à prova de idiotas”. Para se trabalhar com ele não era necessário conhecer a linguagem de computador, nem saber os princípios da programação como eram os computadores da época. Convivi 40 dias com um Mac e fiquei embevecido com as possibilidades. Era tão avançado em comparação com os enormes e lentos PC da época, que dizia-se que quem conhecia um Mac tornava-se fã: doido por ele (“Macnut”) Só não trouxe um pra cá porque a alfândega não permitia. Mas, junto com um amigo, conseguimos que um americano nos trouxesse um modelo “Classic”. Dividimos o custo meio a meio, e quando o americano chegou, fui buscar o Mac no Rio de Janeiro, de ônibus! A sensação que tive ao ligá-lo em casa foi a de ser proprietário de uma nave intergaláctica. Hoje, o “Classic” provocaria risos com seu monitor monocromático, ausência de CD, som estéreo, etc. Mas, quer saber, ainda sinto saudades do bichinho, nunca dava pau, era veloz e muito, muito simples de manusear. E por mais que digam que as diferenças hoje são mínimas entre um PC e um Apple, ainda sinto vontade de voltar a pilotar um. Quem sabe, um dia...

quinta-feira, junho 01, 2006

24- TRANSLATION, PLEASE!

Trabalhei para uma organização cristã universitária, nos anos 70, que mantinha relações com organizações congêneres de outros países. Assim, de vez em quando, nos reuníamos com alguns estrangeiros por diversos motivos. Certa vez participei de uma reunião com outras seis pessoas. Havia um inglês que falava português, inglês e espanhol; dois brasileiros que falavam só português, mas entendiam espanhol; um argentino que falava espanhol e inglês; um americano que só falava inglês; e eu, que arranhava os três idiomas.
A reunião transcorreu em três idiomas, assim, quando alguém falava em inglês, havia necessidade de traduzir para o português; se falavam em espanhol, traduzia-se para o inglês; se diziam algo em português, traduzia-se para o inglês.
No calor da conversa, num certo momento, o argentino disse algo em espanhol e meu amigo inglês apressou-se a virar para o colega americano e traduziu... para o português !!!! Depois de um momento de espanto, caímos todos na risada. E achamos melhor fazer um intervalo.

segunda-feira, maio 29, 2006

23- QUARTO "TEEN'

Meu quarto, aos 14 anos, era um mundo a ser criado. Morando numa casa antiga, em plena avenida Rebouças, SP, ter meu próprio quarto era apenas o começo. Precisava torná-lo “meu espaço”. Com recursos financeiros escassos, mas muita criatividade, pus mãos à obra.
De um calendário do ano anterior retirei 12 fotos incríveis das mais diversas paisagens: montanhas nevadas, florestas, rios e mares que foram colocados na parede, entre o teto e o cordão de madeira, antigo enfeite usado para dar a impressão que o teto era mais baixo.
De um cinema consegui o cartaz de publicidade do filme “Excalibur”, com um cavaleiro de armadura, lança em punho, vindo a galope em sua direção. Foi colocado na porta de entrada.
Uma parede recebeu uma foto de uma “naja”, pronta para o bote, saída de um cartaz de propaganda da revista “National Geographic” que consegui com uma banca de jornais.
Ao lado, a foto, tamanho natural, de uma famosa modelo da época. Recortei sua silhueta e... uau! Ficou dez!
Para concluir, pendurei os chifres de um pequeno veado – troféu de caça que ganhei de um fazendeiro de Jambeiro, SP - que além de uma enorme fazenda, tinha uma matilha de cães perdigueiros também imensa, com a qual costumava caçar.
A janela recebeu algumas dezenas de adesivos e decalques de todo tipo de produto, formando um mosaico multicolorido
O toque final foi dado por minha tia Jô, que me deu um gravador de rolo para que eu pudesse gravar e ouvir minhas próprias músicas. Para ouvir, deitava-me no chão, sobre um tapete de couro de boi e ligava o som a todo volume.
Imagine!!!

segunda-feira, maio 22, 2006

22- PESO PENA

Viajava pela Br 116, de volta para casa, depois de merecidas férias. Acompanhado pela família, parei num posto a beira da estrada, para um pequeno lanche e descanso. O posto, muito bem equipado, possuía um restaurante enorme, com uma grande frente envidraçada. Dentro, pratos diversos, lanches, bebidas e guloseimas eram oferecidos junto com artesanatos, jornais e revistas diversos.
O grande movimento obrigava o estabelecimento a manter as portas - de vidro - abertas para favorecer o fluxo de pessoas. Por estas portas, passou um beija-flor. Atraído, com certeza, pelos odores que emanavam dos alimentos – especialmente os doces – ele volteou pelo salão e decidiu, talvez pelo excesso de pessoas, sair. Mas, desconhecendo a parede invisível que cercava o local, chocou-se violentamente contra o vidro, a ponto de cambalear. Recuperou-se e tomou novamente altura para repetir o gesto tresloucado. Novo choque violento contra o vidro. Depois de algumas tentativas frustradas, o passarinho perdeu as forças e foi lentamente pousando no chão do restaurante, enquanto se debatia em vão para atravessar o vidro. No chão, ficou quieto como morto.
Não resisti ao impulso de socorrê-lo, e cheguei perto, de mansinho. Apanhei-o, e percebi imediatamente que segurava um ser vivo – o coraçãozinho disparado – leve como pluma. Foi a coisa mais leve e frágil e linda que já segurei. A emoção foi de dó, ternura e entusiasmo pela vida que eu tentava salvar.
Ele ficou muito quieto, levei-o pra fora e abri a mão. Por uns instantes, ele não se mexeu. Então, levantou a cabeça, ajeitou-se e rapidamente voou para o alto em direção às árvores do pátio de estacionamento. Duas ou três crianças que me acompanhavam excitadas desde que havia segurado o bichinho bateram palmas. Voltei pro restaurante, reuni a família e retomamos a viagem com uma história incrível pra lembrar.

quarta-feira, maio 17, 2006

21- VIAGEM LONGA

Minha tia era uma solteirona simpática e ousada. Resolveu visitar uns parentes em João Pessoa, Paraíba, e levou dois sobrinhos adolescentes consigo. Eu era um deles. A viagem, em plena década de 60, foi feita de ônibus, em 52 horas de viagem ininterrupta! Graças a Deus, sem maiores percalços. Na volta, em certo trecho do sertão baiano, não havia muitos recursos à beira da estrada e, com isso, viajamos por horas, sem parar. Após algum tempo, a hora do almoço foi passando, e a fome chegou. Num certo momento, um nordestino bem típico, gritou do fundo do ônibus: “Ô seo motorista! Num vamo pará pra cumê? As bicha já tão preguntano pras guela: num desce nada daí não?” Depois de um segundo de surpresa, o ônibus veio abaixo em gargalhadas.

sexta-feira, maio 12, 2006

20- COMIDA FARTA

Almoços em família sempre foram comuns, tanto para mim como para Elaine. A dela, composta de 4 irmãs, a avó e a tia-avó, e os “agregados” facilmente enchiam a mesa de jantar da sua casa. Na minha família, 4 tios, 8 primos e “etc” também formavam um bom grupo. As semelhanças incluíam a risada fácil nas conversas, muitas fofocas e uma longa refeição com enorme quantidade de comida. A diferença mais marcante também era a mais sutil. Na família da Elaine, a fartura incluía varias saladas, carnes e acompanhamentos, com frutas e uma bela sobremesa. Já em minha família, o cardápio também incluía vários tipos de pratos salgados, mas sobressaia o fato da mesa de sobremesas ser quase tão variada quanto a de comida salgada, com 4 a 5 sobremesas, feitas em casa, tentando atrair a gula dos familiares. Arroz-doce, pudim de leite, pavê, doce de abóbora e manjar branco eram consumidos avidamente por todos. Porém, a “ambrosia”, receita centenária, carinhosamente mantida na família por gerações - tão doce que o marido de minha prima a definia como “de amarrar a testa” - era disputada a tapas. Sorte minha, que preferia arroz-doce e, portanto, não precisava entrar na disputa...

quarta-feira, maio 10, 2006

SALADA MISTA

Taí. Resolvi escrever sobre o hoje, o agora, o já. Como este não é o lugar apropriado para isto, tô bancando o besta e me metendo a fazer outro blog, de "atualidades", chamado Salada Mista, para a qual todos são convidados a saborear e colocar seus próprios ingredientes.
Passe lá... http://rubensosorio2.blogspot.com
Abraços, Rubinho

19- ACHEI A ELAINE !!!

A primeira vez que a vi... lembro-me bem. Fui com amigos da ABU a uma igreja. Iríamos apresentar o trabalho que fazíamos nas faculdades, em 1975. Antes do culto começar, fomos para uma sala nos fundos, preparar material de divulgação para distribuir aos presentes. Lá estava ela: cabelos cacheados, olhos vivos e meigos, sorriso fácil, timidez atraente. Fomos apresentados por um amigo meu, seu clega de faculdade. Para não dar na vista que estava muito interessado nela, puxei conversa com sua irmã, que, muito simpática, tornava fácil o papo. Incluía, sempre que podia, a Elaine na conversa, e tive uma noite muito agradável.
Criei coragem e fui vê-la poucos dias depois, na faculdade. Aproveitei e convidei-a para ir ao Playcenter com alguns amigos, no fim-de-semana. Foi divertido, e passei a manter contato com ela sempre que podia. Viajei, nas férias de julho, para Guarapari, enquanto ela foi para Santos com a família. Caminhando pela praia e sentindo saudade daquela pessoa que já havia se tornado tão especial pra mim, recolhi algumas conchinhas e as trouxe de volta comigo. Como ela não havia retornado de Santos ainda, viajei para encontrá-la, cheio de ansiedade e prazer. O encontro foi gostoso e combinamos de jantar naquela noite com minha tia, que morava na outra ponta da praia. Fizemos o caminho de volta a pé, mais de 5 quilômetros, pelo calçadão da praia, lentamente, mãos dadas, conversando sobre tudo... sobre nada... (já nem me lembro mais). Ao fim do caminho, namorávamos. E dois anos e meio depois, casávamos. Já faz tempo, muito tempo, mas a imagem da primeira vez que a vi nunca me saiu da mente... e do coração!

quinta-feira, maio 04, 2006

18- "VOANDO" COM OS BEATLES

Gostava, e ainda gosto, e muito, dos Beatles. Nos anos 60, meus pais diziam que era só moda. Eles iriam desaparecer porque não faziam música “de verdade”, como Bethoven, Bach ou Mozart. Aos 15 anos, pensassem o que quisessem: os Beatles eram o máximo!
Então saiu “Sgt Peppers”. Um disco que eternizou o já famoso quarteto no mundo da música pop. Comentários mil, desde “genial” a “faz a apologia das drogas”, por ter feito uma música cujas iniciais do nome montavam a sigla LSD. Eu tinha que arrumar o “LP” pra ouvir, já que não tinha dinheiro para comprá-lo.
Finalmente, consegui trazer o disco pra casa. Acomodei-me no chão do quarto, como sempre fazia quando ia ouvir música, coloquei a cabeça entre as caixas acústicas da vitrola, e pus o disco pra rodar.
Ouvi todo o disco com interesse e prazer. Algumas faixas realmente me fascinaram, especialmente a que contava a historia da garota que fugia de casa, “She’s Leaving Home”.
Foi quando o disco chegou na última faixa, “A Day in Life”. Música legal, mas nada de excepcional, já que o disco todo era fabuloso. De olhos fechados, acompanhava a banda... e percebi que tinha “viajado”! O que tinha acontecido? Dormi? Não, não me sentia como se tivesse cochilado, mas sim, como se voltasse à realidade depois de ficar desligado dela por alguns instantes. Nossa! Então deve ser assim que as drogas fazem! E eu pude experimentar sem tomar nada... Só ouvindo Beatles... Um barato!

domingo, abril 30, 2006

17- PORRE

Quando o inverno finalmente cedeu, e as temperaturas se tornaram amenas, o grande e esperado evento para os jovens daquela pequena cidade americana, onde morei no intercâmbio, era o chamado “spring break”, férias de primavera: uma semana sem aulas! Iam todos (sem exagero, todos) para a praia, a uns 180 km de distância, e o esporte oficial da semana era o que seria impossível fazer em casa: beber cerveja à vontade (as leis sobre bebidas eram rígidas e obedecidas no estado, exceto naquele lugar, naquela semana). Podia-se perceber, pela manhã, o trajeto do caminhão de lixo, pois ao recolher os latões, escutava-se o barulho de centenas de latinhas caindo na caçamba do caminhão.
Estava hospedado, com meu “irmão” Steve (no intercâmbio, morava com uma família a quem me referia como pais e irmãos) numa casa alugada com outros colegas da escola. Lá também a bebida corria solta.
Uma noite o pessoal já tinha passado da conta e dormiam largados pela casa. Eu e uma amiga da escola namorávamos na sala, sóbrios (por excesso de responsabilidade ou falta de coragem, não sei), quando Steve aparece na porta do quarto, zonzo e de olhos vidrados como um legítimo bebum.
Parou, olhou para nós, murmurou algo incompreensível e dirigiu-se cambaleante para a cozinha, separada da sala apenas por um balcão. Minha amiga e eu acompanhamos seus passos trôpegos. Ele abriu a porta da geladeira e fez menção de mexer na calça. Demorei alguns segundos para perceber o que estava para ocorrer. Quando me dei conta, saltei correndo, segurei-o pelas costas e o empurrei até o banheiro, onde o deixei, de frente para o vaso sanitário. Voltei às gargalhadas para a sala e rimos de chorar por um bom tempo. Confundir a geladeira com a privada era hilário demais!
Minutos depois, como ele não saia do banheiro, voltei lá para ver se ele não estava passando mal. De maneira alguma, mãos na parede, zíper aberto, ele dormia calmamente, em pé, de frente para o vaso. Eu o empurrei novamente para a cama e lamentei não ter uma maquina fotográfica em mãos.
Steve nunca admitiu ter passado por esta situação, que só eu e minha amigas tivemos o privilégio de presenciar. Esta cena ajudou a tornar aquela semana inesquecível!

quarta-feira, abril 26, 2006

16- PAIXÃO

A primeira paixão... Ah... a primeira paixão!!!
Tinha por volta de 8 anos e freqüentava a igreja, onde também freqüentava a minha primeira paixão: cabelos claros e lisos, robusta sem ser gorda, alegre, um ano mais velha (na minha idade era um tempão), simpática, minha amiga, prima de um grande amigo... caramba!!! Que sufoco, esconder tudo no peito e só admirar cada gesto, cada olhar, cada palavra...
O tempo passou, mudamos; eu de bairro, ela, de cidade. Adolescentes, recebi a noticia da morte da sua avó, e meu pai iria ao enterro. Dei um jeito e fui também.
Encontrei-a no cemitério, triste e chorosa. Pus-me a seu lado, segurei sua mão, e não disse muita coisa. Assim que o caixão começou a ser coberto pela terra jogada pelos coveiros, ela quis dar uma volta. Saímos pelas alamedas do cemitério, um daqueles cheios de túmulos, lado a lado, sem nenhum atrativo. Caminhamos em silêncio, mãos dadas. Depois de um tempo começamos a conversar sobre nossas vidas, o que cada um fazia, etc. Ela voltava a chorar um pouco, e eu a abraçava, e a deixava chorar no meu ombro.
Voltei pra casa tão deslumbrado com a experiência, que não consegui me aquietar a não ser depois de escrever um pequeno poema sobre o reencontro e meu sentimentos (“Depois que te vi...” começava).
Passamos a nos escrever vez ou outra. Fui visitá-la numas férias, com minha irmã e uma outra amiga. Percebi que não seríamos mais do que amigos do passado. De qualquer forma, valeu. Aquele sentimento bonito e ingênuo ficou registrado no peito.

segunda-feira, abril 24, 2006

15- VENDO A MORTE DE FRENTE

“A near death experience”. É assim que os gringos se referem a uma situação na qual a gente vê a morte de perto.
Minha mulher e eu viajávamos no pequeno monomotor de um empresário amigo em direção a Gramado. No avião, além de nós três, ia o piloto e um professor de teologia, muito amigo do empresário. Saímos de Londrina com tempo bom, e voamos gostoso, batendo papo, sobre as terras paranaenses e catarinenses até atingirmos a serra gaúcha. O tempo mudou rapidamente, e fomos avisados pelos controladores de vôo que previam o fechamento em breve dos aeroportos da região, devido à nebulosidade.
Ao chegarmos em Gramado, já não se via nada acima ou abaixo de nós; eram só nuvens por todo o lado. O piloto disse que ia baixar bastante para fazer contato visual com o aeroporto, pois não poderia aterrisar por instrumentos. Fomos baixando por entre nuvens - exceto pelo piloto - sem noção de onde estávamos, imersos no branco acinzentado até que, por uma fresta na cortina branca, vislumbrei ao meu lado, como se fosse ao alcance do braço, uma parede verde escura e sólida; a encosta de uma serra. Levamos um grande susto por estarmos tão próximos do solo, e por ele não estar abaixo de nós, e sim, ao lado, como uma parede que surgia de baixo e desaparecia no alto. A uma ordem do empresário, o piloto arremeteu para cima e logo o céu surgiu, azul e ensolarado acima de nós.
Visto que não poderíamos aterrisar em nenhum outro aeroporto da região, só nos restou voltar para Sta. Catarina, onde o tempo estava bom, e descer numa cidade pequena, para passar a noite, abastecer o avião e voltar no dia seguinte para Londrina.
A viagem pode ter sido frustrada em seu objetivo, que era chegar em Gramado, mas realmente foi uma experiência de vida profunda e valiosa. A possibilidade concreta de morrer espatifado na montanha fez-nos encarar medos, valores e sentimentos que poucas vezes tínhamos tido a chance ou a coragem de enfrentar. Conclusão: não tenho medo de morrer, mas sou muito grato a Deus por estar vivo!

sábado, abril 22, 2006

"Daquilo que eu sei..." de Ivan Lins/Vitor Martins

Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza
Nem tudo foi permitido
Nem tudo me deu certeza

Daquilo que eu sei
Nem tudo foi proibido
Nem tudo me foi possível
Nem tudo foi concebido

Não fechei os olhos
Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah! Eu usei todos os sentidos

Só não lavei as mãos
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo
Cada vez mais limpo...

quarta-feira, abril 19, 2006

14- HONESTIDADE

Morando há pouco tempo no interior com a esposa e dois filhos pequenos, a mais de 200 km do restante da família, a adaptação a esta nova situação não estava fácil. Ainda mais porque havia comprado meu primeiro carro, e ele havia provado ser uma porcaria, um péssimo negócio. Quando consegui trocá-lo pelo meu “abacatomóvel” - meu fusca verde de 12 anos - senti-me um vencedor. O carro era confiável, econômico, e resistente. Só não era bonito e confortável, mas isso não me incomodava. Eu o utilizava diariamente para trabalhar.
Portanto, foi uma grande decepção quando meu carro, de repente, começou a fazer um ruído enorme no motor, ruído esse que aumentava com a aceleração. Pensei: “É pistão quebrado, cilindro rachado, alguma coisa grave assim!” E fui direto para a oficina.
Mal cheguei, o mecânico veio me atender e nem precisei falar nada, o som do motor dizia tudo. Disse: “Sei que isso vai te dar trabalho, e vai me dar despesa, mas não posso ficar sem o carro, portanto vou deixá-lo aqui, você vê qual é o problema, diz o preço, e faça o conserto”. O mecânico pediu-me para desligar o motor, foi até a traseira, abriu o capô, olhou, mexeu, fechou o capô e, mãos nas costas, pediu que eu ligasse o carro.
Nada!!! O motor pegou, mas nenhum ruído estranho saiu dele. Aturdido, perguntei o que ele havia feito. Ele mostrou as mãos, segurava uma enorme folha de jornal todo amassado. Aquilo havia entrado na ventoinha de refrigeração do carro, e as pás do ventilador raspavam o papel fazendo aquele barulho ensurdecedor. Tivesse o mecânico más intenções, e ele poderia ter ganho um bom dinheiro às minhas custas, sem fazer nada. Mas ainda existe esperança neste mundo!

segunda-feira, abril 17, 2006

13- SEXTO SENTIDO ?

Um dos meus cinco primos estava muito doente. Nós nos dávamos super bem, afinal a distância entre o mais novo e o mais velho era de apenas 6 anos. Assim, crianças e adolescentes, fomos todos ao mesmo tempo, curtindo e passando pelas mesmas fases. Eram tardes e mais tardes de domingo, ou em dias de férias, brincando das mais variadas formas, e, algumas vezes, brigando também.
Este era um ano mais velho que eu. Aos quarenta e poucos anos, tinha câncer. Apesar de não ter uma ligação maior com ele do que com os outros, nossa convivência era mais fácil, alegre; e nosso relacionamento, mais leve e profundo.
Apesar de toda a luta (e como lutava pela vida!), a doença o venceu. Hospitalizado, morreu durante noite. Eu dormia em casa, a 100 km de distância do hospital. Acordei no meio da noite, absolutamente sem razão aparente; totalmente desperto, sentado na cama, olhei o relógio – madrugada - pensei no meu primo e deitei-me novamente. Bem cedo, meu tio me liga para avisar da sua morte durante a madrugada. Só consegui murmurar: “Eu sabia...”

quarta-feira, abril 12, 2006

12- MERGULHO

A caminho do trabalho, percorro a Rodovia Castelo Branco, de São Paulo a Tatuí. É cedo, por volta das 8 da manhã, e meu fusquinha não me permite andar a mais de 100 km/h. Na descida, um ônibus passa por mim, e mais adiante uma pequena elevação o esconde de mim. Chego ao alto da elevação poucos segundos depois do ônibus, e não o vejo na estrada que se descortina à minha frente... “Estranho! Não há nenhuma saída neste trecho, onde foi parar o ônibus?!” Chego à ponte sobre o rio Sorocaba e percebo que o caminhão que vem em sentido contrário buzina, gesticula e diminui a velocidade, como se fosse parar. Olho pela ponte. Lá, cerca de dez metros abaixo, está o ônibus, enterrado pela metade no rio. Paro no acostamento e corro pela encosta até a margem do rio. O ônibus está só com a parte dianteira para fora da água, e o motorista, machucado, mas vivo, está preso às ferragens, suplicando que o tirem dali. O caminhoneiro está ao meu lado e diz: “Eu tenho corda no caminhão. A gente pode ir até o ônibus, amarrados à corda e trazer quem estiver lá. Você sabe nadar?” Respondo afirmativamente e ele logo está de volta com a corda. Dois ou três outros motoristas já haviam se juntado a nós e combinado que um iria buscar socorro logo adiante, enquanto os outros nos ajudariam segurando a corda. Pulamos de cuecas nas águas barrentas do rio e chegamos até o motorista, que nessa hora já está com a água pela cintura. “Tem mais gente no ônibus?”, perguntamos. A negativa não nos convence, pois ele, desesperado, só quer que o tiremos dali o mais rápido possível. Resolvemos dar uma busca, e mergulhamos ônibus adentro, tateando pelos bancos imersos, rezando para não tocarmos em nada humano. A água barrenta impede a visão, e somente indo de banco em banco, apalpando cegamente é que podemos verificar. Convencidos que não há mais ninguém, amarramos a corda na cintura do motorista, soltamos as ferragens que o prendem, e o grupo, já de mais de uma dezena de pessoas, que se aglomera na margem, puxa-o. Nado de volta, pego minhas roupas e me visto. O motorista já tinha sido carregado para um carro que disparou em direção a Tatuí. Ao chegar no meu carro, a policia rodoviária se aproxima. Digo ao policial que o motorista era a única pessoa a bordo, que já tinha sido levado e que aparentemente só tinha ferimentos, não muito graves, nas pernas. Afasto-me rapidamente para não ser envolvido pela burocracia e perder mais tempo. Retomo a viagem, atrasado, molhado, sujo de barro, tremendo de frio e de nervoso, mas sentindo-me leve, muito, muito feliz por ter tido a chance de ajudar alguém em situação tão grave.

segunda-feira, abril 10, 2006

11- QUANDO SOU CHEIRO...

Todos reunidos em círculo, no acampamento, para a oração do dia. Os escoteiros, entre 12 e 16 anos, impecavelmente vestidos com seus uniformes cáqui, divididos em quatro “patrulhas” de oito integrantes, com seus “monitores” a comandá-los com rígida disciplina.
Um acampamento escoteiro é o ápice dos preparativos e atividades que os escoteiros realizam semanalmente, aprendendo preciosas lições que não se ensinam nas escolas. É a oportunidade de colocar em prática tudo o que sabem, desde montagem de barracas, e preparação de comida aos divertidos e competitivos jogos escoteiros.
O chefe tira o chapéu e convida o grupo à oração. Todos acompanham o chefe, tirando seus chapéus e inclinando a cabeça. Começa a oração, e pouco depois, bem no meio dela, um dos escoteiros dá um gemido baixo, e exclama, entre baixinho e gritado: “Num guento mais!” Um sonoro “pum” ecoa pelo círculo, fazendo com que explodissem risos, contidos em alguns, soltos em outros, acabando irremediavelmente com a solenidade da ocasião.