terça-feira, junho 26, 2007

75- O PATRÃO

Depois de sair da faculdade, meu primeiro patrão foi o Sabará. Antes eu havia trabalhado, durante a faculdade, como professor de inglês.
Antes, ainda, trabalhara algumas horas por semana, lá na loja de móveis do meu “pai americano”, durante o intercâmbio. Mas foram experiências curtas e que não carregavam o peso de ser um emprego pra valer. Esse, não. Havia sido contratado como “geólogo” formado e tinha status e responsabilidades maiores.
Ubirajara Sabará foi, então, meu primeiro patrão. Homem inesquecível. Os 18 meses que trabalhei para ele serviram como um segundo curso superior. Aprendi muito com esse “matuto”, descendente de índios e negros; empreendedor nato, sentia cheiro de lucro e ia atrás. Seu irmão, também micro-empresário de algum sucesso, certa vez me disse: “Meu irmão tem é sorte. Tanta que, se um dia ele resolver encher um lote com esterco, no dia que o terreno estiver cheio, dão a notícia que merda virou dinheiro...
A empresa, especializada em produtos para tratamento de água, tinha muitos clientes entre as prefeituras, fornecendo aos serviços de água das cidades.
Pois fui contratado para implantar uma unidade de extração de calcário e produção de cal de alta pureza. O trabalho foi interessante, prazeiroso, e cansativo. Viajei, de “fuscão”, mais de 90 mil km em 18 meses.
Da convivência com Sabará ficaram algumas lembranças preciosas. Uma delas, frase sempre mencionada por ele quando pretendia adquirir algo: “Eu só compro na galinha morta”. É que, antigamente, vendia-se frango pelas ruas e os mais caros eram os animais ainda vivos, que seriam mortos depois de comprados. As “galinhas [já] mortas” eram mais baratas...
Outra imagem forte é dele, com a mão espalmada contra o peito, dizendo “quero saber qual é a minha parte”. Pois ele não entrava em nada do qual não pudesse ter algum lucro.
Tinha um conhecimento enciclopédico sobre quase tudo, porque tudo o interessava - podia virar dinheiro - e era preciso estar a par de tudo.
Uma vez, ao chegar no escritório, el me disse: "Hoje você não vai trabalhar, vai até a Telesp comprar umas linhas telefônicas pra mim. aproveite e compre pra você também". Obedeci e não me arrependi. Lucrei muito com aquela linha.
Infelizmente morreu num acidente na fábrica, um vazamento de cloro. Ele, corajosamente, entrou no local onde havia vazamento e fechou a válvula. Não sem antes inspirar gás de cloro, que queimou seu pulmão, já enfraquecido pela nicotina, e o matou.
Hoje, 30 anos depois, a Sabará é uma empresa forte e bem sucedida, tributo a um homem impar.

Um comentário:

Lou Mello disse...

Tem indicação para esse blog lá na Gruta. Dessa vez, é para blogs que nos fazem rir. Como costumo rir por aqui, escolhi-o.