terça-feira, outubro 23, 2007

Dois em um

Depois de mais de 100 postagens neste "O Tempo Passa" e 250 na "Salada Mista", chegou a hora de unir os dois.
Assim, a partir de hoje, com apenas um clique em "Rubens Pires Osorio" você terá acesso tanto às minhas memórias e "causos", quanto às minhas reflexões, reclamações, e reações cotidianas.
Os posts antigos continuarão disponíveis nos dois blogs.
Convido-os a continuarem me visitando, comentando e prestigiando este humilde blogueiro que vos escreve. Até !!!

91- CHUVA EM VERSAILLES


Paris é uma festa, diz o ditado. Realmente a cidade tem atrações maravilhosas – o Louvre, a torre Eiffel, o rio Sena – é tudo muuuito lindo!

Elaine e eu tentávamos a impossível tarefa de ver tudo em quatro dias. Saímos cedo do hotel e pegamos o trem em direção ao famoso Palácio de Versailles, que fica fora dos limites da cidade. O céu azul e o brilho do sol prometiam um dia agradável para um passeio ao ar livre.


Lá, dirigimo-nos ao imenso jardim, uma verdadeira obra de arte em forma de folha e flor. Paramos junto a uma simpática fonte para o lanche do meio-dia. Retomamos o passeio. Foi quando percebemos que nuvens negras se aproximavam. Procuramos onde nos abrigar e percebemos que o melhor seria voltar para o palácio. Mas... não deu. Antes de chegarmos a uma área coberta, os céus desabaram sobre nossas cabeças, como diria Asterix, o gaulês.

Foi um sufoco, tentando proteger a máquina fotográfica com meu agasalho de nylon, acabei deixando todo o resto à mercê dos grossos pingos de água que desciam. Junto com a chuva, um vento forte que nos molhava de cima a baixo e de baixo pra cima. Pra piorar, na corrida para achar um abrigo, o vento arrancou-me o chapéu. Tive que correr atrás dele.

Finalmente, ensopados, chegamos a um bom abrigo. Lá tentamos nos secar um pouco e esperar a chuva passar, para poder voltar a Paris.

Que passeio !!!

quinta-feira, outubro 11, 2007

90- PHEBO

Meu avô usava o sabonete Phebo. Ele morreu com mais de 90 anos, quando eu estava com vinte e poucos. Uma lembrança forte e aromática que tenho dele é do perfume de sabonete Phebo que ele usava. Não era um sabonete popular. Era caro, tinha uma cor escura, esquisita. Pouca gente usava. Meu avô gostava. E eu, gosto porque me remete a ele. Não era um homem muito aberto, extrovertido, pelo contrário. Era severo. Os filhos pediam "a bênção", beijando-lhe a mão. Ele usava chapéu de lã e paletó escuro. E tinha alguns costumes interessantes. Comia goiaba picada num prato fundo com leite. Bebia um copo de vinho tinto a cada refeição. Como ele morava em Santos, sua casa significava, pra mim, férias na praia. Eu adorava.
Vô Marcílio era médico. E farmacêutico. E dos bons nas duas coisas. Nunca ficou rico. Tinha certa dificuldade com dinheiro e exercia a medicina para ajudar as pessoas, não para enriquecer. Seu pacientes o admiravam. Ganhava sempre muitos presentes: caixas de uva, garrafões de vinho, doces e compotas, lenços e meias.
Mas o que eu mais lembro é do cheiro de sabonete Phebo que ele exalava depois do banho. Huummm...

terça-feira, outubro 09, 2007

89- SIGLAS AOS MONTES

Brasileiro tem mania de sigla. Até pra nome inventam sigla, por exemplo, FHC – nome de presidente da república! E no estado do Rio Grande do Norte, o clássico do futebol é entre duas siglas, times conhecidos pela sigla e não pelo nome.
Eu tive algumas siglas importantes na vida – instituições que me ajudaram muito em fases distintas e que pude, suponho, ajudar também.
A primeira, UEB, é a União dos Escoteiros do Brasil. Dos dez aos 16 anos, participei ativamente, primeiro como “lobinho” e depois “escoteiro” do Grupo Escoteiro Umuarama, em S. Paulo. Foi um período excepcional, cheio de aventuras, aprendizado e companheirismo. Tanto as reuniões regulares aos sábados à tarde, quanto os ansiosamente aguardados acampamentos foram fundamentais para minha formação moral e social. Anos depois, em Sorocaba, pude oferecer a mesma oportunidade a meninos e meninas do grupo escoteiro que ajudei a fundar e dirigir, o G. E. “Tropeiros de Sorocaba”.
O intercâmbio que fiz pela AFS – American Field Service - foi um marco na minha vida, um ano fundamental. Minha primeira viagem internacional, primeiro ano longe de casa – e dos pais -, primeiro choque transcultural. Considero-me parte, até hoje, da família Frank e cidadão do estado da Carolina do Norte, EUA. Lá empenhei-me em organizar, na minha escola, o AFS Club, que existe ainda.
ABU significa Aliança Bíblica Universitária, e foi ela que, além de me oferecer um apoio fundamental num momento crítico como universitário, deu-me a preciosa oportunidade de conhecer a Elaine. Minha vida universitária foi rica em descobertas e coisas boas, muito por obra e graça da ABU. Dois anos depois de formado, tornei-me membro de seu staff para me envolver com um projeto muito lindo chamado Diaconia. Em resumo, a equipe deste projeto dava apoio e orientação aos universitários que se envolviam em ações de desenvolvimento comunitário em várias regiões do país.
Depois vem a ACM, nem de perto nada semelhante ao famigerado coronel da política baiana, é, de fato, a sigla da Associação Cristã de Moços, também conhecida como YMCA. Com mais de 150 anos e presente em todo mundo, ela é responsável por um bocado de coisa boa que aconteceu neste mundo – desde a invenção do basquete, do volei, do futsal até um de seus fundadores (Henry Dunant) ser o primeiro ganhador do Prêmio Nobel da Paz por ter instituído a Cruz Vermelha. Foi na ACM em S. Paulo que eu aprendi a nadar, e foi para ela, em Sorocaba, que eu trabalhei por cinco anos na formação técnica dos futuros executivos da organização, provenientes de vários países: Portugal, Angola, Peru, Chile, Bolívia, Colômbia, Panamá, Paraguai e de vários estados brasileiros.
Não tenho tido contato com estas instituições. Sei que elas continuam atuantes e fortes. Tenho a esperança de ter retribuído de alguma forma um pouco do muito que recebi na infância e adolescência.
UEB, AFS, ACM e ABU. Quatro siglas num mundo recheado delas. Para mim, entretanto, são especiais...

terça-feira, outubro 02, 2007

88- FRASES...

Eliseu foi meu melhor amigo. Além dele, tinha meus primos,mas estes eram "família", não contam. Então era o Eliseu.

Apesar de gostarmos de brincar juntos e inventar mil coisas diferentes para fazer, ele e eu não tínhamos muita coisa em comum, não. Eu mal tocava o “bife” e ele era exímio pianista. Eu gostava de futebol, ele preferia o basquete. Eu lia sem parar, ele ouvia música e pouco lia. Ele era de família abastada, eu, filho de pastor protestante – naqueles tempos, sinônimo de vida difícil – não tinha nem um décimo dos brinquedos que ele tinha. Por essa razão, os encontros eram sempre na casa dele. E nos dávamos muito bem, a ponto de não me lembrar de ter brigado sério com ele jamais.

Mas não me esqueço das muitas horas, alegres, divertidas, nas quais aprontamos juntos tantas brincadeiras.

Uma das coisas que inventamos foram frases de efeito. Uma delas era: “mas porém todavia contudo entretanto...” que iniciava uma sentença de oposição.

Outra, mais elaborada, unia gírias daquele tempo e mais antigas. Quando queríamos manifestar entusiasmo por alguma coisa, dizíamos: “legal pra caramba à bessa às pencas pra xuxu às baldas”. E ríamos de nossas próprias bobagens.

Começamos a nos distanciar quando a adolescência chegou e as meninas começaram a ocupar nosso tempo. Depois, a vida universitária levou cada um para um canto. Não sei mais dele... mas sei que aqueles tempos foram “legais pra caramba à bessa às pencas pra xuxu às baldas”!!! A ele devo muito da felicidade que curti na infância e adolescência.

Eliseu, à você, meu irmão!!!

terça-feira, setembro 25, 2007

87- MEIA DÚZIA DE DOIS OU TRES...

Aos doze, treze, quatorze anos de idade, é muito difícil levar a vida a sério. Levar os estudos a sério então, impossível. Mas eu era bom aluno, sempre entre os “five top” da minha classe, no Ginásio Mackenzie, de aproximadamente 40 alunos, todos do sexo masculino.

Depois do segundo ano juntos, os colegas tornam-se amigos e mais – cúmplices. Era complicado para os professores nos controlarem.

Havia um, professor de português, que dava aulas há muito tempo. Para nós, era um velho. Provavelmente não. Devia ter uns quinze a vinte anos de carreira e estar ne meia idade. Mas era meio ranzinza, isto ele era. Dava broncas, mandava alunos para a sala do diretor, era severo nas notas. Gostava de mandar quem fazia gracinhas para o “quadro negro” e então fazia perguntas difíceis só para desmoralizar o coitado. Freqüentemente, o aluno tentava, inutilmente, pensar numa resposta e rapidamente o professor ralhava: “Vamos, lerdão!”. E dava um sorrisinho de quem havia, também, dito uma “gracinha

Quando passávamos dos limites, ou aprontávamos alguma, ele nos punha de castigo, dando-nos um longo discurso de repreensão. Ao perceber que tinha exagerado nas críticas à classe, ele tentava consertar dizendo: “A turma não é ruim, não. É só uma meia dúzia de dois ou tres que estragam...” Frase que nunca me esqueci.

terça-feira, setembro 18, 2007

86- "PHD" !!!

No final do século XX, o secretário de saúde de minha cidade convidou-me para dar uma palestra para seu “staff”. Dias depois, ele me convidou para fazer parte de sua equipe de assessores! Senti-me lisonjeado pelo convite, e aceitei. Embarquei de cabeça nos assuntos de saúde, e por dois anos e meio dediquei-me a ajudar o desenvolvimento do sistema de saúde pública da minha cidade. Foi bom, muito bom, mas... sempre tem um “mas”, não é?

Paulatinamente fui-me distanciando do secretário, enxergando, com outros membros do “staff”, um caminho para a saúde pública que o secretário não via, ou não queria ver. Aliada a um centralismo gerencial, a falta de delegação, certa superficialidade no trato de assuntos importantes, e dificuldade em trabalhar em equipe, essa distância tornou difícil o trabalho. Mas eu era teimoso, não queria desistir e o secretário parecia disposto a me manter.

Ao final do primeiro mandato, não me envolvi ativamente na campanha eleitoral; o prefeito foi reeleito e vislumbrou-se uma chance de se livrarem de mim: a mudança da equipe do prefeito em função da nova distribuição política do poder municipal. Em vez de me chamar e pedir minha demissão, tal como tinha feito quando me contratou, foi um auxiliar do prefeito que me convocou ao gabinete e me demitiu, no meio do dia, sem me dar prazo para entregar o cargo, organizar os documentos, deixar tudo preparado para quem fosse me substituir. Deu a impressão que eu era um elemento perigoso, que poderia causar prejuízo se ficasse ali um dia a mais.

Ao despontar do novo século, tornei-me um “phd”: por hora desempregado!!!

terça-feira, setembro 11, 2007

85- ENFRENTANDO A JUSTIÇA

Foram anos felizes aqueles passados na Rua Canindé, no charmoso e tranquilo bairro do Jardim Paulistano, em Sorocaba. As crianças iam à escola ali perto e brincavam com os vizinhos, uma turminha formidável de excelentes meninos e meninas.
Um dia resolveram jogar volei, ali mesmo na rua, e fizeram a rede com uma cordinha esticada de um lado ao outro da rua. Quando algum carro se aproximava, o jogo parava e erguiam com uma vara o cordão para o carro passar.
Um garoto da vizinhança, que não fazia parte da “turma” aproximou-se de bicicleta. A pequena inclinação da rua permitia que alcançasse uma razoável velocidade. Em vão as crianças tentaram avisá-lo do perigo. Ele não viu a cordinha e chocou-se contra ela no pescoço, levando um tombo e ferindo-se sem gravidade. As crianças, assustadas, acorreram acudir o garoto, que ficou bravo e foi pra casa chorando.
Meses depois, recebi em casa uma intimação da justiça para que meu filho, de apenas 10 anos, comparecesse à promotoria. Fomos, Elaine e eu, junto com o garoto, recebidos por uma jovem promotora, que, muito séria, disse que estava investigando uma acusação ferimentos provocados a uma menino e que meu filho estava envolvido no caso e deveria prestar depoimento. Dissemos que ele prestaria qualquer informação que pudesse. Foi quando a promotora sugeriu que iria interrogá-lo a sós. Afirmei que o menino estava sob responsabilidade dos pais, por ser menor de idade, e os pais responderiam por ele. Portanto, qualquer interrogatório seria feito com nossa presença. Ela insistiu, quis dar a entender que quem decidia era ela, não eu; que eu me recolhesse à minha insignificância de pai de infrator.
Fiquei uma fera – quem já me viu furioso sabe o que isto significa – quase pulei no pescoço da “autoridade”. Na época, trabalhava na Secretaria da Criança e do Adolescente e conhecia o Estatuto “decor e salteado”. Sabia que ela não podia agir assim, por isso, finquei o pé.
Para evitar um escândalo maior, a Elaine veio em seu socorro e sugeriu que ela entrasse com o filho na sala da promotora. Eu esperaria do lado de fora. Eu assenti e a promotora não teve jeito, senão aceitar também. Passaram-se meses e recebemos nova convocação. Ao chegarmos ao forum, outra promotora nos recebeu. Olhou para o Rica e perguntou a idade dele. Quando soube, murmurou “tá tudo errado”, olhou-nos com misto de pena e contrariedade e disse: “desculpe-me, ele não é adolescente, não deveria ter sido intimado dessa forma, a colega – promotora substituta – fez tudo errado. Vou anular o caso e pedir o arquivamento desse processo imediatamente. Está bem assim?”. Nós consentimos e votamos pra casa aliviados e felizes. Mas pensando: não fosse a incompetência da primeira promotora, não precisaríamos ter passado por nada disso!!!

terça-feira, setembro 04, 2007

84- MEUS QUINZE MINUTOS DE FAMA

Instado pelo post do Paulo Brabo em 20 de agosto de 2007, vou contar-lhes sobre os meus 15 minutos de fama. Eu já os tive. Duraram seis meses.
Foi assim. Um dia fiquei sabendo que o recém eleito prefeito de minha cidade havia convidado um amigo meu para que implantasse um departamento pioneiro no Brasil: a Secretaria da Criança e do Adolescente - SEMEAR.
Entusiasmado com a relevância do papel que meu amigo estava prestes a assumir, telefonei-lhe, parabenizando-o e aproveitei para, na brincadeira, pedir-lhe um emprego. Ele, sério, respondeu: “venha falar comigo”. Fui, e saí contratado para ser seu assessor!
O trabalho foi insano e gratificante. A recém criada secretaria tinha apenas 2% do orçamento municipal, mas começou projetos, programas e idéias ousadas, pioneiras e relevantes.
Depois de dois anos à frente da SEMEAR, o prefeito pediu que o secretário assumisse a Secretaria de Educação e Cultura, a maior da Prefeitura. Obviamente ele aceitou mais esse desafio, onde fez também um ótimo trabalho. A novidade foi ele ter me indicado para substituí-lo, e o incrível foi o prefeito concordar, em caráter transitório! Assim, no dia 01 de julho de 1995, tornei-me Secretário Municipal da Criança e do Adolescente de Sorocaba.
Fui importante por seis meses. Era entrevistado por jornais e rádios, cumprimentado na rua, tinha carro e motorista à disposição, mencionavam meu nome quando estava presente em qualquer solenidade, tinha assento à mesa das autoridades.
Depois, no início de 1996, questões políticas me levaram de volta à doce situação de plebeu. Mas valeu, e muito. Foi uma experiência rica e valiosa. Posso dizer, porém: ser “famoso” não tá com nada!!!

quarta-feira, agosto 29, 2007

83- O TEMPO NÃO PÁRA...

Será?
A primeira vez que visitei Paraty - RJ, ainda não existia a rodovia Rio-Santos (Br 101). Descemos a serra pela estrada construída por D. Pedro I para poder visitar uma amante... estradinha sinuosa, linda e perigosa, pavimentada com pedras.
Quando lá retornamos, havia se passado mais de 25 anos. Muita coisa mudou, é certo, mas foi emocionante andar pela área preservada da cidade, onde piso, muros, casas, igrejas, postes, tudo, mas tudo, tem os ares de século XIX, exatamente como na primeira vez que lá estive.
Não foi possível acampar, como na primeira vez, nas areias da principal praia da cidade. Ela agora é bastante movimentada, perdeu o ar de praia de pescadores que tinha, até com um pequeno estaleiro de reparos de barcos, e onde os pescadores chegavam com peixes e camarões fresquinhos até a porta da nossa barraca para oferecer. E preparávamos no fogo a lenha ali mesmo, na areia. À nossa volta, apenas sossego. Nada a temer, nada a interromper a calma do local, com o constante vai e vem das ondas compondo o fundo musical eterno.
Paraty foi uma das cidades que visitei com meus pais nas férias de verão na minha adolescência. Ficamos lá alguns dias, eu, minha irmã, meus pais e um primo, descobrindo o verdadeiro tesouro histórico e geográfico que é. Um dos lugares mais lindos que já vi, sem dúvida!
O tempo não pára, mas, em alguns lugares especiais, vale o esforço para preservar intacto, como se o tempo houvesse parado, aquilo que, caso se perca, será um prejuizo sem conta.

terça-feira, agosto 21, 2007

82- O SENHOR DOS ANÉIS

No final dos anos 70, fui apresentado à extraordinária literatura do não menos extraordinário C. S. Lewis. Li alguns de seu livros de não ficção, mas gostei mesmo dos de ficção: “Longe do planeta silencioso” e a coleção “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa” me encantaram. Através de Lewis fiquei sabendo de um outro autor ficcional inglês, Tolkien, que fazia enorme sucesso entre estudantes universitários na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Procurei por seus livros em português e finalmente achei, na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional da Av. Paulista, em S. Paulo. Uma série de seis livros, chamada “O senhor dos anéis”. Durante algum tempo namorei-os na livraria. Sempre que passava por ali, apanhava um volume e gastava alguns minutos lendo. Criei coragem e comprei toda a coleção e iniciei a aventura que é ler Tolkien.
No começo, a leitura não decolava: o texto - cheio de parágrafos descritivos, com referências poéticas e históricas de um mundo que eu não conhecia – era muito mal traduzido, usava um vocabulário confuso e, várias vezes, dava pra desanimar. Mas persisti na leitura, mais por teimosia do que por deleite até chegar num ponto, não sei qual, e nem quando, que percebi não poder mais parar de ler! Andava com o livro debaixo do braço pra qualquer lugar que fosse e abria-o nem que fosse para ler um minuto. Ansiava por qualquer oportunidade de ficar só e poder ler sossegado. Que maravilha! Como alguém podia ser tão espantosamente criativo, coerente, profundo e hábil para criar um mundo e uma história tão excitante, comovente e relevante para nossos dias?
Devorei rapidamente os seis volumes. Elaine, minha esposa, também se rendeu aos “hobbits” e logo meus livros foram parar nas mãos de amigos, curiosos para conhecer o tesouro que eu tinha achado. Eu também os reli e acrescentei “O hobbit” à coleção.
Soube, depois, do enorme alcance da sua obra, como Tolkien era importante na literatura inglesa e universal e como suas profundas convicções cristãs permeavam seus trabalhos.
Quando uma nova tradução, essa sim, excelente, foi lançada, reli com renovado prazer toda a obra e assisti mais de uma vez a trilogia espetacular lançada no cinema. Ainda hoje, ao me lembrar da aventura de Frodo pela Terra Média, espanta-me a grandiosidade da obra de Tolkien.

terça-feira, agosto 14, 2007

81- UM RABINO EXCELENTE

Minha mãe é bibliotecária. A bem da verdade, diga-se, excelente bibliotecária. Nesta época trabalhava para a editora Nobel, em São Paulo.
Um dia um dos proprietários da editora, um judeu dinâmico e culto, porém não religioso, procurou-a para pedir a indicação de alguém que pudesse ler um livro, escrito por um famoso rabino americano, Harold Kushner, para opinar sobre a conveniência de ser publicado. Como sempre gostei de ler, e naquele tempo lia muito sobre teologia, ela indicou-me e trouxe pra mim um exemplar de “Quando Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas”.
Nunca havia ouvido ou lido nada do ou sobre o autor. Confesso que não gostei do título. A priori, não há pessoas “boas”. Mas encarei a tarefa e li atentamente o livro. Acabada a leitura, fiz um relatório aconselhando a publicação do texto, o que realmente foi feito.
O rabino conquista o leitor por todos os lados – racional, teológica e emocionalmente – seu texto vai aos poucos minando as resistências, por sua sinceridade, argumentação clara e uma espiritualidade profunda, vivencial, além de íntimo conhecimento do texto sagrado judaico.
Ganhei, como “pagamento” pelo “serviço”, meia dezena de exemplares, que fui aos poucos dando de presente para amigos que passavam por situações de perda. Comprei outros e mais outros. Ainda não encontrei texto mais adequado para ajudar aqueles a quem só posso oferecer um abraço, um ombro amigo, a solidariedade.
O livro foi bem sucedido e, felizmente, um segundo texto, igualmente bom, foi lançado: “Quando tudo não é o bastante”.
Fico feliz e até orgulhoso por ter de alguma forma ajudado a tornar acessível ao brasileiro os textos desse excelente autor, Harold Kushner.

terça-feira, agosto 07, 2007

80- BATIZANDO SETE QUEDAS

Foi uma viagem muito legal. Nós três - eu e dois primos – numa aventura entre São Paulo e o Mato Grosso (do Sul), de carro. Estávamos em férias. Eu, a seis meses do casamento, queria uma última aventura antes de estabelecer família e virar “homem sério”. A chance era de ouro. Um parente – não muito próximo – ofereceu hospedagem em sua fazenda, próxima à fronteira com o Paraguai. Nós aceitamos.
A viagem foi tranqüila e empolgante. Chegamos a nos perder nas estradas empoeiradas do Paraná. Quase 50 km de desvio. Pegamos um chuvão que deixou a estrada - de terra vermelha, a famosa “terra roxa” do Paraná – um lamaçal perigoso. Vários veículos – até tratores - aguardavam no acostamento enquanto alguns corajosos tentavam subir uma ladeira cheia de barro. Meu primo acelerou forte o corcelzinho “véio de guerra” dele e subimos deslizando de um lado pro outro da estrada até o topo. Uau! Até os camioneiros olharam com espanto e admiração.
Na fazenda, além da deliciosa rotina – acordar cedo, café-da-manhã, passear pelo curral, vendo os peões mexerem com o gado, bate-papo inconseqüente na varanda, ao por-do-sol, e joguinho de buraco depois da janta – pudemos visitar uma das cachoeiras mais bonitas do mundo: As Cataratas de Sete Quedas. Pouco tempo depois elas seriam definitivamente afogadas por toneladas de água da barragem de Itaipu.
À beira de um dos canyions da cachoeira, observei as águas rolando bravias no fundo e me deu vontade de... Como não havia ninguém por perto, pus-me a aliviar a bexiga ali mesmo, fazendo um longo arco líqüido que caia até o rio, lá embaixo. Quando acabei, olhei pra trás e meu primo estava a poucos metros, com uma cara marota. Só descobri a razão quando voltamos pra São Paulo e ele apresentou seu show de slides de fotos da viagem. Num deles, lá estava eu, de costas, e um longo e brilhante jato líqüido caia em direção à cachoeira! Ele havia me fotografado em flagrante!!! Rimos muito e fui obrigado a concordar que a foto tinha ficado demais!
...
(PS- infelizmente por ser em "slide", não tenho como postar aqui. Sorry)

quarta-feira, agosto 01, 2007

79- APEGO À BRASILIDADE

Ao chegar nos EUA como estudante de intercâmbio, em 1970, tinha a companhia de 150 brasileiros. Fomos alojados no campus da Hofstra University, em N. York, com mais de 500 intercambistas de outros 30 países.
Depois de três dias de reuniões de orientação e muita confraternização, chegou a hora de cada um ir para uma cidade, uma família, pelos próximos doze meses. Percebemos, então, que aquele convívio com brasileiros - barulhento, alegre e bagunçado – acabara, e estávamos destinados à solidão da “american way o life” por um longo ano. Este fato mexeu com as emoções de todos nós.
Eu havia feito amizade com alguns brasileiros, mas nenhum deles iria ficar próximo da cidade onde eu iria morar, Salisbury, Carolina do Norte. Uma das meninas do grupo estava com mais medo do que eu, porque o inglês “era grego” pra ela e sentia-se entrando num mundo desconhecido e apavorante. Fiz-lhe companhia neste último dia, tomamos café-da-manhã juntos e levamos nossas malas para o ponto de saída, à espera do transporte que nos levaria aos nossos destinos. Ficamos no gramado próximo, conversando sobre “coisas do Brasil”, nossas famílias, amigos e tudo aquilo que nos era tão querido e que estava tão distante – no tempo e no espaço.
Ficamos assim, conversando, chorando, consolando e na hora de partir, não paramos de nos abraçar, beijar, desejar tudo de bom, prometer manter contato e nos reencontrarmos em um ano.
Finalmente nos largamos, e cada um foi para um lado. Nunca mais a vi...

terça-feira, julho 24, 2007

78- PIRÂMIDE COSMÉTICA E DIVERTIDA

Assim como muitos brasileiros, também entrei para uma “pirâmide”. Só que esta, diferente de outras famosas por aí, não era tão maliciosa e maléfica.
O negócio era o seguinte: a pessoa era convidada a participar da equipe de vendas de uma indústria de cosméticos. Para ganhar dinheiro, bastava participar dos treinamentos, comprar um kit básico dos produtos do catálogo, e sair vendendo. Caso quisesse ganhar mais, era necessário acrescentar pessoas, formando e treinando uma equipe, pois uma pequena parcela das vendas delas lhe seria creditada. Tornando-se um bom líder de equipe, os ganhos indiretos – das vendas dos membros da equipe – suplantariam os ganhos diretos, de vendas próprias. E se acontessesse dos membros da equipe formarem outras equipes, melhor ainda, pois parte do resultado dessas equipes iria para quem tivesse originado a pirâmide.
Durante o pouco tempo em que participei com a Elaine dessa pirâmide, divertimo-nos muito, conhecemos muitas pessoas, algumas fabulosas, gastamos pouco e ganhamos um pouco também, o suficiente para não sair no prejuizo. Além disso, os produtos eram de excelente qualidade e agradavam em cheio toda a clientela. As pessoas que fizeram parte de nossa equipe foram beneficiadas financeiramente, apesar de ninguém ter atingido altos ganhos – ninguém ficou rico.
Não sei o que houve com a empresa depois que saí. Desliguei-me porque o nível de compromisso que exigiam era maior do que estávamos dispostos e porque a empresa concentrou sua atenção nas grandes metrópoles, e nós morávamos na então pequena Sorocaba.
Ouço ainda hoje, depois de tantos anos, de pirâmides em funcionamento; algumas mais perniciosas do que outras, mas todas perigosas por envolverem a pessoa que participa a tal ponto que a torna quase “dependente do negócio”.
Fico feliz por ter participado, mas feliz também por ter saído...

Em Angra dos Reis, nos tempos de “Bio-cosmética”

segunda-feira, julho 23, 2007

Ainda o Mike...

Pra quem ficou curioso em conhecer o bichano, achei uma foto dele, quando adulto e bonitão. Não era uma graça?

terça-feira, julho 10, 2007

77- MIKE

Mike chegou em casa junto com o irmãozinho gêmeo – dois gatinhos de poucos dias de idade, largados em frente ao portão de casa. O irmãozinho não resistiu à primeira noite, mesmo tendo sido alimentado com conta gotas e protegido numa caixa de papelão com panos macios. Mike, resistiu, mas não parecia que duraria muito – magérrimo, com raros pelos no rabinho, mais parecia um filhote de rato, de tão feio – e tratamos dele só por desencargo de consciência. Miava sem parar, 24 horas/dia, a tal ponto que tivemos que prendê-lo no banheirinho da lavanderia, pois ninguém aguentava ouvir seus miados depois de alguns dias. Aguentou, sobreviveu, mas ficou pouco afônico, praticamente não miava. Feio demais, barrigudo, com rabo de rato, cabeção e perninhas finas, andava balançandinho atrás da gente quando saíamos no quintal. Recebeu o nome Mike, na realidade, abreviatura do nome completo: Mai-qui-coisa-feia
Cresceu e ficou um gatão bonito, forte, carinhoso e inteligente. Atendia meu assobio; gostava de caminhar ao lado da gente como cão adestrado; bebia água na torneira da pia do banheiro; e era amigo dos meus cães.
Uma manhã recebi a notícia que ele havia sido encontrado morto no gramado do vizinho. O jardineiro tratou de enterrá-lo e eu nem quis ver porque disseram que ele estava inchado como que envenenado. As pessoas sentiram sua morte. Era benquisto por todos.
Já tive muitos animais de estimação: cães, gatos, pintinhos, coelhos, ratinhos, hamsters, pássaros, peixes e tartarugas. O Mike era especial. Vai sempre ser lembrado com saudade...

terça-feira, julho 03, 2007

76- BLOG, BLOGAR, BLOGUEIRO

Estas são palavras novas e excitantes para mim. Fazem há tão pouco tempo parte do meu mundo e já fazem parte das minhas melhores lembranças...
Tudo começou quando meu velho pai viu-se obrigado a aposentar-se pra valer – visto que legalmente já estava há vários anos. Veio aquele sentimento de inutilidade, de incapacidade, de estar à espera da morte somente.
Eu sabia que meu pai precisava sentir-se útil, atuante. Sabia também que ele tinha centenas de estudos preparados para ensinar na igreja presbiteriana da qual foi pastor durante mais de cinco décadas. Alguns estudos eram atemporais enquanto outros eram bem pontuais. Mas, mesmo estes mereciam ser divulgados mais amplamente, porque poucas pessoas os conheciam. E poderia ser útil na vida de alguns.
Foi quando me veio a idéia de divulgar estes estudos pela Internet. Assim, pensava eu, ele poderia animar-se a organizar seus escritos – que estavam bem espalhados pela casa – e escrever mais.
Abri uma conta no Blogger e montei o “Reflexões do Pastor Rubens Osorio” – um blog para postar os estudos bíblicos de meu pai.
Divulguei-o entre os familiares e através do jornal da Igreja Presbiteriana do Brasil. E as reações apareceram: pessoas próximas e algumas distantes no tempo e no espaço manifestaram alegria pela existência do blog!
A reação positiva animou-me a pensar seriamente em publicar na web meus textos: pequenas histórias acontecidas comigo (como esta). Assim aconteceu este meu segundo blog, “O Tempo Passa...”
Daí o vírus já havia se instalado no meu sangue e logo eu estava com meu terceiro e mais freqüente o “Salada Mista”.
Tornei-me um blogueiro. Amador, simplório, mas feliz em poder divulgar para quem se interessar, meus pensamentos, lembranças e sentimentos.
Comecei querendo ajudar meu pai... e foi ele que me ajudou !!!

segunda-feira, julho 02, 2007

Ooops !

Alguns de voces podem ter estranhado o teor do post colocado na 5a feira, de número 53, assinado pelo meu pai.
O texto foi postado por engano aqui no "Tempo Passa...".  O certo é onde está agora, no blog de estudos bíblicos, reflexões eclesiásticas e sermões  "Reflexões do Pastor Rubens Osório", onde publico semanalmente escritos de meu pai.
Desculpem a nossa falha.

quarta-feira, junho 27, 2007

Laughing Blogger Award

Pois é, este blog não tema intenção de fazer rir. Mas lembranças são assim: às vezes até as trágicas ou tristes nos fazem rir.
Fico feliz em saber que alguém se diverte comigo. No caso, o Lou, que me concedeu esta honraria. Vindo dele, é mais significativa, pois ele é engraçado até em funeral...
Minha tarefa é indicar blogs engraçados. Aqui vai:

Conversas & Pensamentos - tem ótimas charges !!!
Querido leitor - a produtora do "Pânico" só poderia ser engraçada, mas é também inteligente!
All Quad - apesar de ser um blog sobre arte de animação, os trabalhos apresentados são sempre muito, muito bons, bem humorados, leves... artísticos!

Acessem o blog da Meire pra ver os outros agraciados

Por enquanto, esses três. Depois indico mais dois, ok?