quinta-feira, dezembro 28, 2006

57- NATAL COM NEVE !!!

No Brasil a neve é caso raro, raríssimo, digno de sair no noticiário nacional da televisão. Então, quando fui aos EUA como intercambista, esperava ter a chance de ver neve, muita neve. Mas a deliciosa Salisbury, pequena e agradável cidadezinha onde morei não tinha neve com frequência. Nevava, sim, todo inverno, mas apenas em alguns dias e em pequeno volume.

Assim, quando o inverno chegou, comecei a acompanhar o noticiário meteorológico pra ver se anunciavam alguma nevasca... nada! Os dias se passavam, o fim do ano foi chegando, as temperaturas cada vez mais congelantes (para os meus padrões, pelo menos), mas nada de neve. Até que chegou o Natal.

Na noite de Natal fomos à igreja, para uma bela e tocante cerimônia com muita música natalina, e depois tivemos um deliciosa ceia. Lá pelas dez horas da noite, alguém entra em casa, vem me dizer que estão caindo alguns flocos de neve !!! Saí pra varanda e me assombrei com o espetáculo que davam os pequeninos flocos brancos caindo na noite. Foi legal demais!!! E melhorou, pois a neve caiu mais forte e, em pouco tempo cobria o chão o suficiente para sairmos com os “sledges” – pequenós trenós – com os quais descíamos a rua em ladeira onde morava uma amiga. Foi uma noite inesquecível por mais de um motivo. Eu finalmente sabia o que significava “White Christmas”.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

56- SORVETE MAIOR QUE A FOME

Poucas eram as nossas chances, morando no interior de SP e com filhos pequenos, de freqüentarmos teatro e cinema. Mas os filhos cresceram, e tentávamos aproveitar as chances que apareciam.

Assim, quando familiares de SP avisaram que estavam programando ir ao teatro, pedimos que nos incluíssem também.

Tivemos de sair cedo para S. Paulo, o teatro ficava próximo ao centro e o trânsito exigiria paciência e tempo. Além disso, não permitiam atrasos. Por garantia, saímos cedo.

Chegamos a tempo de estacionar, achar o pessoal, cumprimentar todos, saber as últimas novidades e logo fomos para nossos lugares.

A peça foi realmente muito, muito boa e terminou perto das 10 h da noite. Eu e Elaine estávamos famintos. Na família, todos haviam jantado e a proposta de tomar um sorvete e um café venceu.

Fomos para uma famosa sorveteria e o menu destacava o fato de prepararem “a maior taça de sorvete da cidade”. Elaine e eu nos olhamos, a fome bateu forte e pedimos essa taça (uma só para os dois!), enquanto todos pediam sorvetes simples.

A taça chegou, e não a achamos grande coisa - oito bolas, oito coberturas, farofa e canudinho crocante - parecia o que precisávamos para matar a fome.

Com o tempo, percebemos que o sorvete era muito maior do que imaginávamos. Todos acabaram suas taças, tomaram café e batiam papo esperando por nós... e haja sorvete!

Já no fim, a taça se tornara intragável. O sorvete derretera, misturando-se com as coberturas, fazendo um melado dulcíssimo, de arrepiar.

Desistimos e um dedo deste melado ainda ficou no fundo da taça. Saímos estufados e enjoados, de volta pra casa.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

55- FORDINHO BOM DE SONO

Aos cinco, seis, anos de idade, meus avós paternos moravam “no outro lado da cidade”, um percurso de mais hora em nosso “Fordinho 33”. Para lá íamos freqüentemente, aos domingos, depois da igreja, almoçar com os avós e passar a tarde. Eu gostava da casa dos meus avós. Ficava num bairro tranqüilo e bem urbanizado da São Paulo dos anos 50. Meus primos apareciam também por lá e tínhamos chance de brincar pra valer.

Mas no caminho para lá, o balanço do calhambeque, seu barulho contínuo, o calor do meio dia e a falta do que fazer me “sonavam” e eu acabava dormindo profundamente.

Meus pais sabiam que eu acordaria logo, com fome, e por isso deixavam-me dormir só, no carro, quando chegávamos, enquanto o almoço era preparado.

Então eu acordava. Ao longe, vez por outra o som de um carro que vinha e ia quebrava o tranqüilo silêncio do bairro. Havia também o canto de pássaros nas árvores que faziam sombra no carro. E havia paz. Uma paz que me penetra a pele até hoje, ao recordar aqueles dias.

Creio que nunca senti uma solidão tão tranqüila e pacífica como naqueles domingos de sono dentro do “fordinho” do meu pai.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

54- FESTA PARA CRIANÇA

O “Dia da Criança” é, depois do Natal e do aniversário, a data mais esperada e querida pelas crianças. E nós, da recém criada SEMEAR – Secretaria Municipal da Criança e do Adolescente de Sorocaba (1993) – queríamos tornar aquele dia inesquecível para as crianças da cidade.

O chefe (Secretário da SEMEAR) pensou numa festa pra muita gente, com muitas atrações, entrada gratuita, um evento pra ficar na história da cidade. Convenceu o prefeito a fazer um grande evento, com financiamento privado, e mobilizou toda a equipe em torno deste objetivo (in)comum.

Trabalhamos pra caramba, fomos de empresário em empresário, com o chapéu na mão, arrecadando fundos para a festa, enquanto outros procuravam os grandes nomes do “show biz”, convidando-os para participar, sem cobrar, da nossa festa. Durante muitos anos guardei o “relatório financeiro” deste “caixa 2” do bem, com medo de ser acusado de alguma ação desonesta.

Ao final, conseguimos ninguém menos que os Trapalhões e a dupla infantil (na época) “Sandy e Jr.” para se apresentarem “na faixa”, além de pára-quedistas e outras atrações.

No dia, trabalhamos das 5 horas da manhã até o final da noite. Algo como 20 mil pessoas lotaram o estádio municipal para ver aqueles astros. Foi uma canseira!

Quando tudo acabou, estávamos felizes e exaustos com o que havíamos conseguido; prometemos uns aos outros nunca mais entrar numa “fria” como essa, mas... No ano seguinte, lá estávamos, desta vez com o apoio da Rede Globo, fazendo uma “Festa para Criança” diferente, mas igualmente excitante e exaustiva.

terça-feira, novembro 28, 2006

53- GUIADO POR OUTDOORS

Aos 12 anos, uma das minhas atividades preferidas era como escoteiro, nas tardes de sábado. Para chegar ao local das reuniões, tomava o ônibus. Assim também para ir à ACM (YMCA), duas vezes por semana, para jogar bola e nadar. Pegava o ônibus no bairro e ia ao centro da cidade. São Paulo não era pequena e eu era, o que a tornava maior. Era fácil se perder na cidade. Poucas esquinas tinham o nome das ruas em placas e as poucas existentes não ficavam exatamente à vista.

Por isso, fui obrigado a arranjar um meio de localizar-me na cidade, sob o risco de passar o ponto e acabar me perdendo. Sempre fui atraído pelos cartazes de propaganda e percebi que, mais do que distração, eles poderiam ser meu guia na cidade. Assim, quando andava pela cidade, a pé ou de ônibus, guiava-me pelos grandes painéis de propaganda para ir na direção certa, e nas placas menores, de indicação de lojas e comércio para achar a rua ou a esquina certa. Até hoje tenho a tendência a me referir a estes quando menciono algum local.

terça-feira, novembro 21, 2006

52- PRAGA DE PULGAS !!!

Morávamos numa boa casa, com chão de tacos de madeira, em Sorocaba. As crianças eram pequenas, tínhamos um gato e um coelho, que, acreditem, eram amigos! Tenho uma foto do gato dormindo ao lado do coelho, com sua pata abraçando-o. Verdade!

Pois bem, um dia voltamos ao entardecer de uma viagem de alguns dias e ao entrarmos na sala da casa, algo extraordinário aconteceu. O chão se movia!!!! Sim, uma leve sombra ondulava-se suavemente com nossos passos. Ao acender a luz da sala, qual não foi nossa surpresa e horror ao perceber que o chão estava repleto de pulgas saltitantes, querendo subir nos nossos pés e pernas. Tivemos que trepar no sofá para fugir delas.

Depois, aplicamos por toda a casa, dias seguidos, uma fina camada de um inseticida em pó, que era (e será que ainda é?) vendido em uma latinha redonda, para nos livrarmos de todas as pulgas. O interessante é que tanto o gato como o coelho não estavam infestados como seria de se esperar. A casa fechada por uns dias havia se transformado em estufa onde os insetos haviam se multiplicado sem sair dali.

Ainda arrepio quando lembro da cena!

terça-feira, novembro 14, 2006

51- CINDY SE DESPEDE !!!

Tinha acabado de chegar aos Estados Unidos pela primeira vez. Aos 18 anos, tudo era não só novidade, como incrivelmente excitante e um pouco amedrontador também.

A família hospedeira me levou para a praia, por uns dias, aproveitando o verão e “quebrar o gêlo”. Tudo estava bem.

Com meu “irmão” e um amigo dele, fizemos amizade na praia com algumas garotas. Ser estrangeiro facilitou o nosso contato com elas, pois ficaram interessadas em saber por quê, onde, como, o quê era o “Brazil”.

Cindy, uma delas, era muito alegre, animada, simpática. Gostavam de música e meu irmão americano tocava violão, o que permitia nos reunirmos na praia à noite para cantar e bater-papo. Quando estávamos à procura delas, costumávamos sair gritando em coro: “Ciiiiindyyyy!!!”, por pura diversão.

Chegou o dia de ir embora. Fomos à procura das garotas pra nos despedir. Trocamos endereços e números de telefone, promessas de escrever, ligar e nos encontrar em futuro próximo. Abraços, beijinhos; na hora de despedir-me da Cindy, ela me “tascou” um beijo na boca! Surpreso e agradecido, olhei pra ela, enquanto me dizia: “This is to remember Cindy! Ainda me lembro...

terça-feira, novembro 07, 2006

50 - MEU PÉ DE LARANJA LIMA

Fui um adolescente devorador de livros. Lia praticamente tudo que caía às minhas mãos, principalmente ficção – Francisco Marins, Conan Doyle, Azimov, Burroughs, Monteiro Lobato, Bradbury, etc – povoavam minha imaginação com aventuras impressionantes.

Uma das minhas atividades mais saborosas era passar pela Livraria Cultura, no edifício Copan da Av. Paulista e ler livros entre as prateleiras da loja, especialmente Asterix (que por ser “quadrinhos” lia rapidamente) e os “best sellers”, caros demais pra meu bolso e ainda não disponíveis na biblioteca onde minha mãe trabalhava, e de onde saiam os livros que lia.

José Mauro de Vasconcelos já era um sucesso editorial quando li seu primeiro “hit”. Não estava muito empolgado, pois me parecia ser uma literatura “água com açúcar”, mas confesso que estava curioso pra saber porque tal livro tinha tanto sucesso.

Lembro-me de ter entrado, uma tarde, no quarto de meus pais e visto o livro sobre a cômoda - algo comum, já que minha mãe era bibliotecária. Freqüentemente, ela trazia livros pra casa para conferir sua catalogação.

Com a intenção de só dar uma olhadinha, pra ver como era o estilo do autor, abri o livro e sentei-me à beira da cama. Passaram–se algumas horas e percebi que havia lido todo o livro, sofregamente, e que a emoção tomava conta de mim. Nossa, pensei, pode até não ser “alta literatura”, mas entendo a razão do autor ter tanto sucesso!

Li depois, outro livro do autor, mas o impacto não aconteceu. O sucesso também. Seja qual for o segredo, era desconhecido do próprio José Mauro.

Mas ler um livro numa “sentada” só, sem mesmo perceber, foi uma experiência incrível.

terça-feira, outubro 31, 2006

49- INVASÃO !!!

Logo que me foi possível, adquiri um telefone celular. Era um tijolão que mal permitia a conversa, caro e com uma pesada bateria que não durava nada, obrigando o uso de bateria de reserva. Mas achei que devia me incluir na nova tecnologia, como tinha feito com o micro-computador. Assim, fui me acostumando a ter o aparelho ao ponto de, atualmente possuir, em nome da minha empresa, um para cada membro da família.

Um dia, recebi uma chamada. Ao atender, a pessoa se identificou como “André, do depto de atendimento ao cliente da Vivo” e começou com uma conversa mole que me levou a desconfiar que ele não fosse quem dizia ser. Acusei-o de ser um falso funcionário, ameacei denunciá-lo e desliguei. Ao olhar a chamada recebida para identificar o número, vi que não era possível, pois no meu visor aparecia “número restrito”. Liguei para a Vivo, comunicando o fato e fui informado que a empresa não usa “número restrito” para falar com os clientes. Ah, então, o “André” era falso mesmo!

Algum tempo depois o mesmo “André” me liga novamente. Alerta por ver que a chamada era de “número restrito”, acusei o fulano de criminoso, disse que ia denunciá-lo para a Vivo, xinguei-o um monte e desliguei. Falei em seguida com a Vivo, denunciando a tentativa criminosa.

Passaram-se alguns minutos e recebi, no telefone fixo, uma chamada de uma paciente da Elaine (ela é médica), dizendo que não conseguia ligar pra ela. Tentei também, e não consegui. Liguei logo para a Vivo e fui avisado que alguém da minha empresa havia ligado para eles, um tal de “André” e havia solicitado o bloqueio de todas as linhas, em razão de roubo!!! Só consegui desbloquear as linhas depois de duas horas conversando com os atendentes da Vivo. O safado havia se vingado do fato de não ter me enganado, fazendo-se passar por funcionário da empresa, fornecendo todos os dados solicitados pela Vivo, e fazendo o bloqueio das linhas.

Poucas vezes me senti tão injuriado. E, ao mesmo tempo tão impotente, pois simplesmente não podia fazer nada, a não ser lamentar. Pra desabafo, escrevi um longo e-mail explicando o acontecido e enviei para os amigos e para os jornais. Quase desisti de ter celular... “Haja !!!”

segunda-feira, outubro 23, 2006

48- ATAQUE (QUASE) FATAL!!!

Aproveitando o post do Paulo Brabo (www.baciadasalmas.com) "Invasores de Pórticos", passo-lhes minha experiência com as "assassinas". Divirtam-se.

É muito gostoso morar numa chácara. É tranqüilo, ecológico, saudável. Mas também tem seus perigos.

Aconteceu com meu cão “boxer”, o Aquiles. Cachorro carinhoso, afável, brincalhão, grande companheiro. Entretanto, por ser muito fuçador e escapar do quintal da casa, ele ficava no canil a maior parte do tempo.

Um dia, estava em casa só, quando ouvi ganidos de dor e raiva vindo do canil. Resolvi ver o que estava acontecendo, e ao sair fui surpreendido pelo barulho e movimento de vôo de milhares de abelhas. Refugiei-me de volta em casa, e percebi, pela janela, que o cão tava sendo atacado por algumas abelhas, contra as quais lutava ferozmente. Enrolei-me num cobertor e saí novamente. Ele já estava desesperado e ficou mais ainda quando cheguei perto. Soltei-o, pensando em cobri-lo com o cobertor, mas ele disparou para o gramado no lado oposto do canil, onde, felizmente, não havia abelhas. Esfregava-se na grama, gemendo. Levei-o pra dentro da casa, examinei-o e percebi que o número de picadas era enorme. Precisava levá-lo ao veterinário ou o Aquiles poderia morrer.

O problema era que as abelhas não pareciam querer ir embora, e meu carro estava próximo do canil, bem onde elas se concentravam. Enrolei o cão num cobertor, peguei-o no colo, enrolei-me em outro, tomei coragem e fui para o carro. Consegui entrar rapidamente, deixando-o no chão do lado do passageiro; matei uma ou duas abelhas que entraram com a gente. Fui “à toda” pro veterinário, com o Aquiles meio largado e babando muito. Ele recebeu medicação e se recuperou logo.

Ao voltarmos pra chácara, não havia mais abelhas, a não ser as mortas no chão do canil e da garagem.

Foi um susto muito grande, eu pensei que fosse perder meu cachorro, jovem ainda, com apenas um ano de idade. Agora, com 10 anos, ele ainda mora no canil. Nunca mais foi “visitado” por abelhas. Talvez nem se lembre mais delas. Eu, não.

terça-feira, outubro 17, 2006

47- ESSA É PRA HOME!!!

Estive em Recife e lembrei-me de um episódio que se passou com um colega pernambucano:


Trabalhando como geólogo em Guapiara, interior de SP, viajava toda semana de São Paulo para lá. Comigo ia esse colega.

Sempre que parávamos para almoçar, fosse onde fosse, ele perguntava por “uma pimentinha”. Quando traziam o tradicional vidrinho com molho avermelhado ele insistia: “não tem pra macho, não?”. Pra ele pimenta tinha que ser bem forte.

Durante a semana, almoçávamos na casa do nosso encarregado, que ficava próxima à jazida. Comidinha caseira, simples e deliciosa. O agrião era recolhido na hora, em um riacho que passava atrás da casa!

Pois bem, meu colega sempre pedindo uma pimentinha “prá macho” e nosso capataz tentando encontrar alguma que o satisfizesse, sem muito sucesso. Um dia, já sentados para comer, ele chega todo ressabiado e diz: “O senhor veja se esta lhe agrada”. Numa pequena garrafa, pequenas pimentas verdes estavam imersas em líquido transparente amarelado. Meu amigo abriu-o e percebeu que a pimenta era curtida na cachaça. Cuidadosamente, colocou duas gotas do líquido à beira do prato e misturou uma boa porção do arroz com feijão e farinha. Deu uma garfada, mastigou lentamente, com todos o observando e depois de alguns segundos disse em voz baixa e rouca: “esta é prá macho!”. Nunca mais reclamou. E diariamente, no almoço, pingava uma gotinha da pimenta à beira do prato. .

quarta-feira, outubro 11, 2006

46- MEMÓRIA SABOROSA

O programa era simples: cada um levaria uma pizza para assar na hora. A intenção era singela: fazer uma reunião divertida e saborosa a baixo custo. A razão era louvável: reunir um grupo de colegas para um bate-papo descontraído fora do ambiente de trabalho.

Entre fatias de pizza de atum, presunto, calabresa, muçarela, etc, aparece um casal, de origem finlandesa, com uma pizza que além de tomate e queijo, tinha finas fatias de um cogumelo raro e muito caro, trazido da Finlândia.

Como o grupo era grande, cada pizza era cortada em fatias pequenas. Sendo um grupo grande, havia grande quantidade de pizza para todos. Exceto essa única pizza de cogumelo finlandês. Cada um teve direito a esse único pequeno pedaço, só para provar.

Dei uma pequena mordida na minha fatia, por temor do sabor desconhecido. À medida que mastigava, percebi que saboreava algo nunca experimentado antes – divino. Comecei a mastigar mais devagar, tentando não engolir tudo rapidamente como sempre fiz. Minha preocupação passou a ser o tamanho minúsculo da fatia que eu recebera. Será que todos iam perceber que estavam diante de um monumento ao sabor? Sobraria algum pedaço que eu pudesse surrupiar da mesa e assim prolongar aquele momento?

Pensei: Meu Deus! Algum dia vou me esquecer desse sabor! Preciso gravá-lo na memória! Ah, se fosse visível, fotografava-o! Hum, que delícia! Quanto tempo esse sabor ficará na minha boca depois que a pizza acabar? É bom demais pra terminar tão cedo! Também, que gringo muquirana, fazer só uma pizza deste cogumelo! Será que algum dia terei oportunidade de comê-lo novamente? Huuumm! Mas é bom demais! E tão pouco!!!

Hoje, anos depois, tenho vívido na memória aquele momento mágico, de puro prazer divino de saborear algo tão delicioso. Mas não me perguntem qual era o sabor. Esqueci...

quarta-feira, outubro 04, 2006

45- POLÍTICA 5

Na Geo-USP, no início da década de 70, o clima era de contida revolta pela morte do colega “Minhoca” (o Alexandre Vanuchi). O centro acadêmico (CA), vigiado de perto, fazia o que podia pra manter o ativismo político aceso, sem levantar repressões, tanto das autoridades acadêmicas quanto militares. O marxismo era o pensamento dominante na Geo, e uma forma de ação era a divulgação de literatura de esquerda, principalmente em espanhol - Marx, Lenin, Trotsky, Castro, Bakunin, Furtado, Freire, etc. Essa divulgação se dava em “feiras culturais”, em meio a muito samba e cachaça.

Decidido a não me omitir, pedi para também expor alguns livros que falavam de política, das injustiças sociais, do mundo contemporâneo a partir de uma perspectiva diferente, pois não era socialista marxista, nem adesista burguesa. Era “cristã combativa” (inventei o termo agora!) – Lewis, Padilla, Escobar, Schaeffer, Bonhoeffer, Ellul, Stott, Yoder, Guiness, Gutierrez.

A primeira reação da diretoria do centro acadêmico foi indeferir meu pedido, com a justificativa que só os livros do CA seriam expostos e vendidos, para angariar fundos para as atividades do mesmo. Solicitei uma reunião com a diretoria e disse que eu fazia parte da escola, que não era o único a partilhar das idéias dos livros, que queria colaborar expondo os livros , que de bom grado reverteria o valor das vendas em benefício do centro acadêmico e que meus livros almejavam o mesmo fim, a partir de outro ponto de vista. Não havia conflito.

A reunião ocorreu num classe-laboratório da escola, com longas mesas. Um dos nossos mais respeitados colegas, que, inclusive, passara meses preso por ocasião do episódio com o “Minhoca” estava na sala, apesar de não fazer parte da diretoria (o Rui é hoje membro do Greenpeace no Brasil). Deitado sobre uma das longas mesas, parecia estar simplesmente descansando após o almoço, antes das aulas da tarde. Depois de explicar minhas razões, o presidente do CA começou a dizer um “Mas... Antes que completasse a frase o Rui o interrompeu, deitado ainda, só com a cabeça erguida, e disse: “Você tá certo, Rubens, teus livros podem ser vendidos junto com os do CA. Você tem todo o direito de participar da forma que puder. E eu agradeço pela tua colaboração.”

Não me lembro do resultado da feira. Certamente meus livros não foram best sellers. Mas marquei posição; percebi e mostrei que era possível aliar-me no combate à ditadura sem ser marxista e sem abrir mão das minhas convicções. Inesquecível...

sexta-feira, setembro 29, 2006

44- POLÍTICA 4

Fui ao ofício religioso de Vladimir Herzog, na Catedral da Sé.

Minha consciência cristã não me permitia conformar-me com sua morte. Logo no primeiro ano de faculdade havia perdido um colega mais velho, o “Minhoca” (Alexandre Vanuchi), abatido covardemente pela ditadura. Estar presente ao evento era o mínimo e o máximo que eu podia fazer.

Foi uma experiência emocionante. A praça cercada de militares, a multidão lotando a linda igreja. O sentimento de poder e impotência colidindo e co-existindo no coração. A percepção que algo acontecia, que a realidade mudava e que o mundo (ou pelo menos o Brasil) seria diferente daquele dia em diante. Difícil explicar.

quarta-feira, setembro 27, 2006

43 - POLÍTICA 3

O grupo de estudos políticos do qual fiz parte nos anos de universidade chamou a atenção de um homem que pretendia fundar um novo partido: PHC – Partido Humanista Cristão. Os ventos da abertura já sopravam.

Fiz amizade com ele, que nos tempos mais sombrios da ditadura havia sido preso - e trazia uma labirintite crônica como souvenir -, e participei de muitas atividades visando a organização partidária. Mas chegamos à conclusão que éramos poucos para implantar um partido e o melhor seria fazer parte de um partido já existente como “grupo”, “ala”, “facção”.

À procura de um partido nos levou a ter uma reunião com o Dr. Olavo Setúbal, líder do PP e renomado banqueiro. A reunião foi no escritório de um dos mais importantes membros daquele partido, o advogado Cláudio Lembo (enquanto escrevo, ele ocupa o cargo de governador de SP). Reunião curta, cheia de gentilezas, mas que nos deu a certeza de que pouco ou nenhum espaço de ação teríamos caso aderíssemos. Com o tempo, o grupo enfraqueceu-se e dispersou. Nosso líder e amigo chegou a candidatar-se (creio que a deputado) pelo PDT e cheguei a alistar-me como membro deste partido. Mas nunca atuei partidariamente, apesar de ter sido membro do staff de dois governos municipais em minha cidade.

domingo, setembro 24, 2006

42- POLÍTICA 2

Há vários anos, em parte devido à repressão militar, não havia greves no campus da USP. De repente, eclode uma greve na ECA (Escola de Comunicações e Artes), onde estudava uma amiga, participante de nosso grupo local de ABU. Ela apresentou a situação para o grupo, pois achava que devia apoiar a greve, pois os motivos eram justos, mas não queria desafiar as autoridades, que proibiam greves.

A discussão sobre o assunto foi profunda, havia pessoas nas três posições: contra, a favor, e sem opinião. Nossos estudos e debates nos levaram a apoiá-la, caso aderisse à greve. Fomos criticados por aqueles que achavam que a postura do grupo não era muito “cristã”, e admirados por aqueles que esperavam que cristãos fossem omissos e submissos nas questões políticas.

A greve finalmente acabou, sem a vitória dos estudantes. Mas serviu, e muito para meu amadurecimento. Anos mais tarde, um dos membros do grupo, que mais se opunha a uma postura politicamente ativa do grupo, veio me dizer que reconhecia que estávamos certos.

terça-feira, setembro 12, 2006

41- POLÍTICA 1

Ser um ativista político universitário nos anos 70 não era coisa simples. A trilha entre a “esquerda revolucionária e perseguida”, e o “conformismo burguês ao status quo” era estreita e mal demarcada. Além disso, o ativismo cristão era criticado pelos dois lados: por negar Marx e suas ilusões; e por pregar a rebeldia ao autoritarismo instalado. Ética e justiça eram base para atitudes que desagradavam aos dois lados. Mesmo assim, passamos incólumes.

Eu fazia parte de um grupo em SP que se reunia mensalmente para discutir “cristianismo e política”. Certa vez convidamos para a reunião um conhecido vereador, pastor evangélico, que havia sido eleito pela oposição e depois bandeara-se para a situação. Colocamos o homem em cheque e a cena foi constrangedora, ele não tinha justificativas para o que fizera, a não ser “conveniência política”. Resultado: escrevemos uma carta repudiando a sua atitude de mudar de partido sem consultar seus eleitores, traindo, assim, a confiança deles. Sem dó...

terça-feira, setembro 05, 2006

40- ROUBADO!!!

É difícil imaginar sensação pior do que a de ter sido roubado. Mesmo com o alívio de não ter se encontrado frente a frente com o bandido, livrando-se assim de uma possível agressão física e até a morte, a sensação de violência e invasão de privacidade é das piores possíveis. E eu já tive esse sentimento mais de uma vez...

Uma delas foi quando adolescente. Morava em Sampa, numa casa térrea, confortável, mas nada “chic”. Viajamos por alguns dias e ao voltarmos haviam invadido a casa, arrombando a janela. Além do furto, mexeram na cozinha, espalharam comida pela mesa e chão da sala, uma sujeira intencional e maldosa. Moleque ainda, passei alguns dias a imaginar os terríveis e variados sofrimentos a que submeteria os ladrões, quando os pegasse...

Muitos anos depois já em Sorocaba, casado e com filhos, saí do trabalho, perto das 5 horas da tarde, peguei meus filhos na escolinha e levei-os pra casa. A empregada havia saído por volta das 4, portanto a casa ficou fechada por pouco mais de uma hora. Entramos em casa, pela sala, e havia algo estranho. Em segundos percebemos que o vídeo cassete não estava junto à TV, e, olhando pelo corredor, vimos aberta a porta da cozinha, que dava para o quintal. Era uma porta de ferro e vidro, que havia sido entortada, provavelmente com pé-de-cabra, para a invasão. Num canto do quintal, muito, muito assustada, estava nossa cadela preta, viva, mas com certeza agredida, tal era o terror nos seus olhos. Voltei para o interior da casa e subi para os quartos, agora já temendo encontrar alguém. No quarto, sobre a cama, a gaveta de objetos da minha esposa estava toda revirada, faltando as poucas peças de jóia que tínhamos, algumas de grande valor sentimental. Mas não havia ninguém mais.

Chamamos a polícia, que veio, fez o B. O. e nos advertiu para o fato de que algumas residências naquele bairro haviam sido furtadas recentemente. Nunca recuperamos o que nos foi tirado. Eventualmente compramos o que podia ser comprado, menos os objetos de estimação. Apesar de nada de mal ter-nos acontecido, foi impossível impedir, por muitos dias, uma profunda sensação de agressão, impotência, raiva e medo.

segunda-feira, agosto 28, 2006

39- GATO ATROPELADO

Os filhos tinham 4 e 5 anos de idade. Nessa idade não há como fugir de ter um gatinho na casa. Era um gato comum, filhote ainda e ficava no quintal da casa, esperando receber atenção de qualquer um que passasse por perto.
Estávamos atrasado para algum compromisso. As crianças estavam fora (na escola ou outra atividade). Saímos apressados e, ao dar ré no carro, para tirá-lo da garagem, senti algo estranho sob o pneu, ao mesmo tempo que ouvi um miado abafado... Parei preocupado fui ver o que havia acontecido. O gato estrebuchava em convulsão. Não havia nada a fazer (nem tempo pra isso). Deixei o corpo do bichano num canto da garagem e fomos embora.
A única preocupação foi a de voltar antes das crianças. Eles não poderiam ver aquele gatinho morto, seria muito triste. Precisava me descartar do corpo; se o gato simplesmente sumisse, poderíamos arrumar outro mais tarde, sem grandes traumas.
Mas, qual foi a nossa surpresa, o bicho não estava mais lá! Mais tarde ele apareceu, com fome e aparentemente normal.
Não sei se os felinos tem sete vidas, mas que este teve pelo menos duas, teve!

terça-feira, agosto 15, 2006

38- AMIGO É PRA ESSAS COISAS

Na faculdade é inevitável a formação de pequenos grupos de alunos (as inevitáveis “panelinhas”), que por empatia se unem nas diversas atividades e situações da vida universitária.
Eu não era diferente. Tinha a minha, amigos com os quais fazia os trabalhos e pesquisas, estudos para provas, companhia nas excursões curriculares - que algumas vezes duravam vários dias.
Numa dessas viagens, conversávamos no ônibus da escola e o assunto voltou-se para nossos problemas pessoais. Discutíamos o que, como e porque o colega devia se comportar e o colega não concordou com minha opinião. Meus argumentos eram sólidos, o que perturbou o colega a ponto de ficar bravo comigo e estourar dizendo: “A vida é minha, faço o que quiser. Você não se meta na minha vida, ninguém te deu o direito de interferir”. Eu retruquei na hora: “Tenho todo o direito de me meter na sua vida, sim. Sou seu amigo e por isso não só tenho o direito como até a obrigação”.
Fui pra minha poltrona. Passaram-se alguns minutos e meu amigo apareceu no corredor. Meio “desemxabido”, sentou-se no braço da poltrona e disse: “Você tá certo, cara. Se meus amigos não tiverem a liberdade de me dizer o que acham que seja o melhor pra mim, mesmo que eu não goste, quem dirá?” E voltou para seu lugar.
O assunto morreu ali. Logo depois estávamos ocupados com qualquer outra coisa, nem me lembro o quê. Não mencionamos mais o incidente. Mas eu nunca me esqueci. Creio que o conceito ainda é válido hoje, eu acho.