sexta-feira, setembro 29, 2006

44- POLÍTICA 4

Fui ao ofício religioso de Vladimir Herzog, na Catedral da Sé.

Minha consciência cristã não me permitia conformar-me com sua morte. Logo no primeiro ano de faculdade havia perdido um colega mais velho, o “Minhoca” (Alexandre Vanuchi), abatido covardemente pela ditadura. Estar presente ao evento era o mínimo e o máximo que eu podia fazer.

Foi uma experiência emocionante. A praça cercada de militares, a multidão lotando a linda igreja. O sentimento de poder e impotência colidindo e co-existindo no coração. A percepção que algo acontecia, que a realidade mudava e que o mundo (ou pelo menos o Brasil) seria diferente daquele dia em diante. Difícil explicar.

quarta-feira, setembro 27, 2006

43 - POLÍTICA 3

O grupo de estudos políticos do qual fiz parte nos anos de universidade chamou a atenção de um homem que pretendia fundar um novo partido: PHC – Partido Humanista Cristão. Os ventos da abertura já sopravam.

Fiz amizade com ele, que nos tempos mais sombrios da ditadura havia sido preso - e trazia uma labirintite crônica como souvenir -, e participei de muitas atividades visando a organização partidária. Mas chegamos à conclusão que éramos poucos para implantar um partido e o melhor seria fazer parte de um partido já existente como “grupo”, “ala”, “facção”.

À procura de um partido nos levou a ter uma reunião com o Dr. Olavo Setúbal, líder do PP e renomado banqueiro. A reunião foi no escritório de um dos mais importantes membros daquele partido, o advogado Cláudio Lembo (enquanto escrevo, ele ocupa o cargo de governador de SP). Reunião curta, cheia de gentilezas, mas que nos deu a certeza de que pouco ou nenhum espaço de ação teríamos caso aderíssemos. Com o tempo, o grupo enfraqueceu-se e dispersou. Nosso líder e amigo chegou a candidatar-se (creio que a deputado) pelo PDT e cheguei a alistar-me como membro deste partido. Mas nunca atuei partidariamente, apesar de ter sido membro do staff de dois governos municipais em minha cidade.

domingo, setembro 24, 2006

42- POLÍTICA 2

Há vários anos, em parte devido à repressão militar, não havia greves no campus da USP. De repente, eclode uma greve na ECA (Escola de Comunicações e Artes), onde estudava uma amiga, participante de nosso grupo local de ABU. Ela apresentou a situação para o grupo, pois achava que devia apoiar a greve, pois os motivos eram justos, mas não queria desafiar as autoridades, que proibiam greves.

A discussão sobre o assunto foi profunda, havia pessoas nas três posições: contra, a favor, e sem opinião. Nossos estudos e debates nos levaram a apoiá-la, caso aderisse à greve. Fomos criticados por aqueles que achavam que a postura do grupo não era muito “cristã”, e admirados por aqueles que esperavam que cristãos fossem omissos e submissos nas questões políticas.

A greve finalmente acabou, sem a vitória dos estudantes. Mas serviu, e muito para meu amadurecimento. Anos mais tarde, um dos membros do grupo, que mais se opunha a uma postura politicamente ativa do grupo, veio me dizer que reconhecia que estávamos certos.

terça-feira, setembro 12, 2006

41- POLÍTICA 1

Ser um ativista político universitário nos anos 70 não era coisa simples. A trilha entre a “esquerda revolucionária e perseguida”, e o “conformismo burguês ao status quo” era estreita e mal demarcada. Além disso, o ativismo cristão era criticado pelos dois lados: por negar Marx e suas ilusões; e por pregar a rebeldia ao autoritarismo instalado. Ética e justiça eram base para atitudes que desagradavam aos dois lados. Mesmo assim, passamos incólumes.

Eu fazia parte de um grupo em SP que se reunia mensalmente para discutir “cristianismo e política”. Certa vez convidamos para a reunião um conhecido vereador, pastor evangélico, que havia sido eleito pela oposição e depois bandeara-se para a situação. Colocamos o homem em cheque e a cena foi constrangedora, ele não tinha justificativas para o que fizera, a não ser “conveniência política”. Resultado: escrevemos uma carta repudiando a sua atitude de mudar de partido sem consultar seus eleitores, traindo, assim, a confiança deles. Sem dó...

terça-feira, setembro 05, 2006

40- ROUBADO!!!

É difícil imaginar sensação pior do que a de ter sido roubado. Mesmo com o alívio de não ter se encontrado frente a frente com o bandido, livrando-se assim de uma possível agressão física e até a morte, a sensação de violência e invasão de privacidade é das piores possíveis. E eu já tive esse sentimento mais de uma vez...

Uma delas foi quando adolescente. Morava em Sampa, numa casa térrea, confortável, mas nada “chic”. Viajamos por alguns dias e ao voltarmos haviam invadido a casa, arrombando a janela. Além do furto, mexeram na cozinha, espalharam comida pela mesa e chão da sala, uma sujeira intencional e maldosa. Moleque ainda, passei alguns dias a imaginar os terríveis e variados sofrimentos a que submeteria os ladrões, quando os pegasse...

Muitos anos depois já em Sorocaba, casado e com filhos, saí do trabalho, perto das 5 horas da tarde, peguei meus filhos na escolinha e levei-os pra casa. A empregada havia saído por volta das 4, portanto a casa ficou fechada por pouco mais de uma hora. Entramos em casa, pela sala, e havia algo estranho. Em segundos percebemos que o vídeo cassete não estava junto à TV, e, olhando pelo corredor, vimos aberta a porta da cozinha, que dava para o quintal. Era uma porta de ferro e vidro, que havia sido entortada, provavelmente com pé-de-cabra, para a invasão. Num canto do quintal, muito, muito assustada, estava nossa cadela preta, viva, mas com certeza agredida, tal era o terror nos seus olhos. Voltei para o interior da casa e subi para os quartos, agora já temendo encontrar alguém. No quarto, sobre a cama, a gaveta de objetos da minha esposa estava toda revirada, faltando as poucas peças de jóia que tínhamos, algumas de grande valor sentimental. Mas não havia ninguém mais.

Chamamos a polícia, que veio, fez o B. O. e nos advertiu para o fato de que algumas residências naquele bairro haviam sido furtadas recentemente. Nunca recuperamos o que nos foi tirado. Eventualmente compramos o que podia ser comprado, menos os objetos de estimação. Apesar de nada de mal ter-nos acontecido, foi impossível impedir, por muitos dias, uma profunda sensação de agressão, impotência, raiva e medo.

segunda-feira, agosto 28, 2006

39- GATO ATROPELADO

Os filhos tinham 4 e 5 anos de idade. Nessa idade não há como fugir de ter um gatinho na casa. Era um gato comum, filhote ainda e ficava no quintal da casa, esperando receber atenção de qualquer um que passasse por perto.
Estávamos atrasado para algum compromisso. As crianças estavam fora (na escola ou outra atividade). Saímos apressados e, ao dar ré no carro, para tirá-lo da garagem, senti algo estranho sob o pneu, ao mesmo tempo que ouvi um miado abafado... Parei preocupado fui ver o que havia acontecido. O gato estrebuchava em convulsão. Não havia nada a fazer (nem tempo pra isso). Deixei o corpo do bichano num canto da garagem e fomos embora.
A única preocupação foi a de voltar antes das crianças. Eles não poderiam ver aquele gatinho morto, seria muito triste. Precisava me descartar do corpo; se o gato simplesmente sumisse, poderíamos arrumar outro mais tarde, sem grandes traumas.
Mas, qual foi a nossa surpresa, o bicho não estava mais lá! Mais tarde ele apareceu, com fome e aparentemente normal.
Não sei se os felinos tem sete vidas, mas que este teve pelo menos duas, teve!

terça-feira, agosto 15, 2006

38- AMIGO É PRA ESSAS COISAS

Na faculdade é inevitável a formação de pequenos grupos de alunos (as inevitáveis “panelinhas”), que por empatia se unem nas diversas atividades e situações da vida universitária.
Eu não era diferente. Tinha a minha, amigos com os quais fazia os trabalhos e pesquisas, estudos para provas, companhia nas excursões curriculares - que algumas vezes duravam vários dias.
Numa dessas viagens, conversávamos no ônibus da escola e o assunto voltou-se para nossos problemas pessoais. Discutíamos o que, como e porque o colega devia se comportar e o colega não concordou com minha opinião. Meus argumentos eram sólidos, o que perturbou o colega a ponto de ficar bravo comigo e estourar dizendo: “A vida é minha, faço o que quiser. Você não se meta na minha vida, ninguém te deu o direito de interferir”. Eu retruquei na hora: “Tenho todo o direito de me meter na sua vida, sim. Sou seu amigo e por isso não só tenho o direito como até a obrigação”.
Fui pra minha poltrona. Passaram-se alguns minutos e meu amigo apareceu no corredor. Meio “desemxabido”, sentou-se no braço da poltrona e disse: “Você tá certo, cara. Se meus amigos não tiverem a liberdade de me dizer o que acham que seja o melhor pra mim, mesmo que eu não goste, quem dirá?” E voltou para seu lugar.
O assunto morreu ali. Logo depois estávamos ocupados com qualquer outra coisa, nem me lembro o quê. Não mencionamos mais o incidente. Mas eu nunca me esqueci. Creio que o conceito ainda é válido hoje, eu acho.

quinta-feira, agosto 10, 2006

37- Ah! A PRAIA!

Quando se é criança, morando numa selva de pedras como Sampa, a praia exerce uma atração mágica: água, espaço, céu, horizonte, ondas, sol. Tudo contribui para a fascinação.
Imagine então, a excitação de meia dúzia de moleques, primos, indo para a praia com a Jô (era tia, mas não gostava de ser chamada assim)!!! Era demais.
Chegamos em Praia Grande de carro, à noite, e nos instalamos num pequeno apto.
Pela manhã, muito cedo mesmo, fui acordado por meus primos que me chamavam ao banheiro. O dia amanhecera chuvoso e cinza, mas nada diminuía o entusiasmo da turma. Como devíamos esperar a tia acordar e nos dar café da manhã antes de sairmos, estavam todos apinhados uns sobre os outros, olhando pela minúscula janela do banheiro. Do nosso apto, era o único lugar da onde se divisava o mar e a praia, meio que entre prédios. Mas dava pra ver as ondas chegando na areia cinza, ao longe.
Por que será que nos sentíamos assim, embevecidos por um céu, praia e mar cinzas e longínquos? Por que será que a imagem desta cena me é tão nítida que chego a ouvir o murmúrio das ondas e sentir o aroma salgado do mar? Não sei...

quinta-feira, agosto 03, 2006

36- CRIANÇAS

Nossos filhos são nosso maior tesouro, dizem. Concordo. E acumulamos jóias preciosas na memória, daquilo que nossos filhos foram ou fizeram, a cada etapa da vida. O álbuns de fotografia nos trazem à lembrança fatos e situações ternas ou hilárias que guardamos com carinho no coração. Outros fatos não estão registrados em imagens, mas temos nítida lembrança deles. Eis alguns:
1- Recém engatinhando, levamos nossa filha pela primeira vez à praia. Ela adorou!!! Curtiu o mar, apesar de insegura, as ondas e tudo o mais. Estendemos uma esteira na areia para que ela tomasse um pouco de sol. Depois de alguns instantes distraída com os brinquedinhos que a acompanhavam, ela se dá conta do espaço imenso à sua volta, e resolve engatinhar. Chega à beira da esteira e olha curiosa e interessada para a areia fina e branca da praia. Então, lenta, mas firmemente, leva a palma da mão até a areia, toca-a e retrai... O movimento é rápido, como se tocasse ferro quente, o corpo e o rosto arrepiam-se e transparecem surpresa, nojo, o inesperado. Olha para a palma da mão, vê a areia e limpa-a na esteira. Repete o movimento em direção à areia, lenta e firmemente. Novo arrepio. Pai e mãe lutam para não explodir em gargalhadas, interrompendo assim o momento mágico da descoberta. Inútil. Na terceira vez não há como resistir. Inesquecível!
2- Chegada a fase de diversificar a alimentação, procurávamos dar coisas diferentes aos filhos, com reações opostas. A menina, precavida, tinha a tendência a dizer que não gostava de tal comida antes mesmo de provar. Seu irmão tinha reação diferente: aceitava experimentar a novidade. Ao primeiro bocado, ele fazia uma careta como se não tivesse gostado, chegando, às vezes, a se arrepiar. Mastigava a comida, engolia e quando perguntado se queria mais... aceitava! Era tão divertido que chegávamos a dar-lhe novidades para experimentar só pra curtir essa reação tão contraditória. Hoje, com mais de 20 anos, ainda gosta de experimentar novos sabores, mas não faz mais aquela cara engraçada!

quinta-feira, julho 27, 2006

35- CADÊ MEU FUSCA ?!?!

Meu fusquinha verde - “o abacatomóvel” – era um excelente carro, me deu muitas alegrias e foi utilíssimo, especialmente quando as finanças eram muito apertadas e as crianças, muito pequenas. Mas, depois de sete anos com ele, as crianças já maiorzinhas, e a grana não tão curta, o velho fusca, com mais de 15 anos de existência, já não era o suficiente. Com esforço, comprei um Gol pelo consórcio. E por alguns dias fiquei com dois carros, mas pretendia vender o fusca logo.
Minha cunhada veio de S. Paulo com a família nos fazer uma visita de fim-de-semana. Como só cabiam dois carros, à noite deixei o deles e o Gol na garagem e estacionei o fusca em frente ao portão, trancado, marcha engatada, pára-choque junto ao poste de luz da rua.
Na manhã seguinte, domingo, acordo pouco mais tarde e encontro meu cunhado lendo o jornal da manhã tranqüilamente no jardim da frente, enquanto fuma um cigarro. Chego até ele e conversamos sobre futebol, o tempo, e outras trivialidades. Aí perguntei se ele havia ido até a padaria de carro pra comprar pão quente pro café-da-manhã e ele disse que não. Então eu perguntei: “Ué, e cadê o fusca?” Ele fez uma cara de espanto e me disse: “Você não tirou ele daqui?”... Lentamente nos demos conta que o fusca tinha sumido da frente de casa, e que nem ele nem eu havíamos percebido isso até aquele momento.
Foi um alvoroço. Saí na rua para me certificar que ele não teria descido a ladeira sozinho (o que seria improvável, visto que o poste estava na frente dele). Pegamos o carro do meu cunhado e reviramos o pacato bairro onde morava e... nada!!! Só me restou gastar preciosas horas do domingo na delegacia, fazendo um B.O., e lamentar não ter feito seguro do carrinho (afinal eu ia vendê-lo logo! e quem iria querer um fusca velho?!). Nas semanas seguintes ainda tive esperança de que o encontrassem abandonado por aí, mas em vão. Nunca mais soube do meu “abacatomóvel”, que deve ter ido pra um desmanche e desaparecido.
Sorte que eu tinha o meu Gol zerinho pra compensar a perda, não é? Mas quer saber de uma coisa? Não compensou.

sexta-feira, julho 21, 2006

34- "YAHOO, MINAS GERAIS...AIII !

Acampei, com meus irmãos escoteiros, no terreno do Umuarama Hotel, em Campos do Jordão, nos anos 60. Lugar lindo, convivência alegre, atividades movimentadas compunham estes dias felizes.
Uma das atividades mais esperadas era poder cavalgar pelas estradinhas de terra da região, conversando, brincando: diversão de primeira!
Um dos escoteiros tinha a mania de gritar “yahoo, minas gerais!” quando punha seu cavalo a galope. Estávamos perto do lago do hotel, e a estrada passava pelo vertedouro do mesmo, por uma ponte de madeira. Estávamos de um lado do lago, a cavalo, e o escoteiro do outro lado nos viu e decidiu galopar até onde estávamos. Quando seu cavalo pegou velocidade, ele, cheio de pose, deu seu grito de “cowboy”: “yahoo, minas gerais!”, o que nos fez olhar para trás a tempo de ver o cavalo dar uma violenta derrapada na ponte de madeira e ejetar o escoteiro da sela a metros de distância, num tombo espetacular. Felizmente, sem vítimas, mas com muitos gemidos de dor.Depois disto, os colegas, sempre que queriam brincar com ele, diziam: “yahoo, minas gerais, aiii!!!”.

terça-feira, julho 18, 2006

33- DOR DE DENTE

Viajei, com estudantes universitários da ABUB, para S. Felix do Araguaia, em Goiás, com o objetivo de dar apoio à pequena comunidade evangélica do lugar e também prestar alguma ajuda aos índios Carajás da Ilha do Bananal. Foi uma viagem inesquecível por muitos motivos: desde o maravilhoso grupo com que convivi, a visita ao centro lingüístico em Brasília, a viagem de “teco-teco”, o majestoso Rio Araguaia, os banhos de rio ao pôr-do-sol e as atividades que realizamos, até fatos pitorescos como o que relato.
Passamos uma semana com os índios, acompanhados de uma enfermeira da Funai. Esta, teve de sair por uns dias, e ficamos na aldeia, hospedados na casa para funcionários, convivendo e conhecendo um pouco da cultura carajá.
Uma tarde, recebemos a notícia que o chefe da tribo estava doente, com terrível dor de dente. Alguém da tribo veio saber se podíamos fazer alguma coisa pelo chefe. O consenso era de que nada podíamos fazer sem a autorização da funcionária da Funai. Mas eu achei que pelo menos minorar seu sofrimento até a volta da enfermeira era possível. E – ousadia! – ofereci um comprimido de aspirina.
No dia seguinte, fomos, apavorados, saber como o chefe havia passado a noite. Estávamos morrendo de medo que o remédio pudesse ter causado algum efeito colateral indesejado, visto que eles provavelmente não estavam acostumados com a farmácia do homem branco, e que estivesse bravo conosco. Ele poderia nos dar algum castigo inimaginável... Suspense...
O próprio chefe sai da cabana, sorri muito constrangido, e diz que dormiu muito bem, sem dor nenhuma, a melhor noite da semana. Em seguida, me estende um colar de contas e penas, feito por ele mesmo, para me agradecer e diz “obrigado” na sua língua, acrescentando uma palavra que seria o meu nome carajá.
Poucas vezes me senti tão aliviado e tão orgulhoso na vida. O meu nome carajá - infelizmente não lembro mais - e o colar ficaram comigo muitos anos - eventualmente este deteriorou-se e joguei fora.
Mas as lembranças ficam... E um pouquinho do orgulho também...

sexta-feira, julho 14, 2006

32- VERÃO "INGLÊS"

Durante alguns anos trabalhei na ABUB, no fim dos anos 70 e início dos 80, com uma maravilhosa e heterogênea equipe: um inglês, antropólogo de Cambridge, com português perfeito; uma assistente social maranhense e entusiasmada; um economista mineiro (uai), desconfiado e crítico; e eu, um geólogo extraviado.

Nosso escritório no primeiro andar tinha grandes janelas que permitiam muita iluminação, e boa visão do céu paulistano. Num dia de inverno, o céu estava totalmente nublado, e apesar de não chover, o tempo não era nada animador. Parei seja lá o que estava fazendo e olhando para aquele céu cinzento comentei: “que dia, hein?”. Ao que meu colega e amigo antropólogo retrucou em inglês, tirando os olhos da leitura e observando o céu atentamente: “sure, just like summer in London (é mesmo, até parece um dia de verão em Londres)”.

Só quando ele olhou pra mim e viu minha cara de horror, percebeu o que havia dito. E demos boas risadas. Que bom é viver num país tropical!

terça-feira, julho 11, 2006

31- BANANA SPLIT

Quando somos jovens, tendemos a fazer um monte de bobagens. Algumas trágicas, outras, que desejaríamos não lembrar, mas que nossos amigos não se esquecem...
Fim-de-tarde, um grupo de estudantes de medicina se reúne na famosa sorveteria Alasca para curtir um sorvete e bater-papo. Elaine faz parte do grupo e eu a acompanho. Cada um pede um sorvete e o estudante pede uma “banana split”. Vem aquela taça enorme que ele devora com vontade, e pede uma segunda. Ao ver o assombro dos colegas, ele comenta que gosta tanto de sorvete, e mais ainda, da combinação do sorvete com a fruta na “banana split” que seria capaz de comer três taças daquelas. Seu comentário final é acompanhado de um murmúrio de descrença, bem na hora que o garçom chega com a segunda taça. Experiente e brincalhão, o garçom fala pro rapaz que se ele conseguisse comer toda a segunda taça, a terceira seria por conta dele.
Todos já acabaram seus sorvetes e estão de olhos postos no colega e sua taça. E o ele vai comendo, conversando e comendo, cada vez mais lentamente, até que diz: “gente, vou dar uma voltinha”, levanta-se e sai a caminhar pelo quarteirão. Volta, senta-se, recomeça a tomar o sorvete, mas chega um ponto em que começa a passar mal e todos o aconselham a parar antes que dê um vexame e vomite em plena sorveteria.
Desolado, paga por duas taças e sai comentando: “essas taças tinham sorvete demais”. Ele talvez não se lembre do fato, mas todos os seus colegas de faculdade, sim.

sexta-feira, julho 07, 2006

30- SERENATA

Acampamentos eram freqüentes quando jovem. Freqüentei-os na Palavra da Vida (nas férias) e no Escotismo (fins-de-semana e feriados), dos 12 aos 16 anos, e na ABU, dos 19 aos 24. Mesmo em família, fazíamos freqüentes viagens acampando.
Estava em Souzas (Campinas – SP), com um grupo de universitários “abeuenses”, para um acampamento de férias. Alguns dias de muito esporte, estudos, bate-papos, brincadeiras e comida. E muita paquera, também, porque ninguém é de ferro...
Uma noite, sei lá porquê motivo, quis fazer uma surpresa pras meninas. Convidei os rapazes para fazermos uma serenata pra elas, coisa antiga já naquele tempo. Não era mais costume. Mas me deu na cabeça de fazer. Os amigos ficaram ressabiados e desistiram quando o único que sabia tocar violão quis ir dormir mais cedo. Afinal, uma serenata que se preze deve acordar as donzelas, e cansados de tantas atividades, era difícil esperar acordados que elas dormissem. Mas eu estava decidido.
Saí no meio da noite do dormitório masculino em direção ao quarto das meninas. Sem instrumento, sem habilidade vocal, sem ensaio, fui na cara e na coragem. Cantei uma ou duas modinhas de Juca Chaves, pouco conhecidas pelas meninas.
“É noite, inda brilha a lua,
na rua do amor.
O cenário é uma aquarela
pintada a sonhos
tristonho de dor.
Eu vejo surgir na esquina
a menina que vive em mim.
Tão linda e divina, ao vê-la
uma estrela
desmaia enfim...”

...fiz o maior sucesso!!! Até hoje não sei se pela interpretação, ou pela cara-de-pau...

segunda-feira, julho 03, 2006

29- A COPA DE 70

A Copa de 2006 me leva de volta à de 1970... Ainda não sei se o Brasil chegará à final, se será hexacampeão ou voltará pra casa com o rabo entre as pernas. Mas já valeu pelas lembranças de 70...
O Brasil ganhara afinal! Tri-campeão!!! A euforia que tomou de todos era palpável na vibração que se sentia no ar, nos sons, nas cores (verde e amarelo em tudo), nos rostos das pessoas que passavam em frente à minha casa na Av. Rebouças, em São Paulo, naquela tarde.
Logo percebemos (alguns primos assistiram ao jogo final em minha casa) que o povo se dirigia à Rua Augusta, à famosa, chic e super-frequentada Rua Augusta, centro de aglomeração da juventude na era pré-shopping (há muito tempo atrás) na zona Sul de São Paulo.
Fomos correndo pra lá e um mar de gente tomava a rua por vários quarteirões. Os carros não trafegavam e os pedestres subiam e desciam a rua, cantando, dançando, pulando como loucos.
Em meio a toda essa loucura, uma coisa saltou à minha vista, me surpreendeu e permanece na lembrança daquele dia feliz: alguém havia conseguido abrir a caixa de controle de um semáforo e usava-o para fazer as luzes piscarem, alegres e ensandecidas: verde e amarelo... amarelo e verde... verde e amarelo...

sexta-feira, junho 23, 2006

28- COPA DO MUNDO

Em 1958, com apenas 6 anos de idade, senti pela primeira vez o que é ser Campeão Mundial de Futebol no país do futebol.
A única coisa que me lembro, é a de estar brincando na rua – morava numa pequena rua sem saída na periferia de São Paulo – e ver um avião sobrevoar baixo a cidade, e as pessoas acenarem dizendo que eram os campeões mundiais que chegavam da Europa...
Em 1962, tentei ouvir alguns jogos, mas as rádios de ondas curtas eram horríveis de se ouvir, não tinha paciência e conformei-me em ver os documentários no cinema. Em 1966... esqueça 1966!!!
Mas em 1970... Ahhhhh!!! 1970 foi outra coisa. Inesquecível, inebriante, contagiante, foi tudo de bom. E eu, com 18 anos, bebi os jogos do Brasil pelos olhos e ouvidos como se bebesse o néctar dos deuses. E era.

segunda-feira, junho 19, 2006

27- CAPRIOTTI

A vida universitária é espetacular... pena que não percebamos isso quando somos estudantes. No meu caso, vários fatores contribuíram para torná-la inesquecível.
Confesso que o primeiro ano foi meio assustador. Ambiente, colegas, matérias, toda a minha vida revirada. A ponto de chegar para o meu pai, no fim do ano e dizer que se as coisas não melhorassem, iria desistir do curso.
Mas melhoraram. E muito. Por um lado, depois de familiarizado, a cidade universitária tornava-se um imenso campo de vivências novas e excitantes: shows, esportes, exposições, as próprias aulas, palestras, movimentos: tudo enriquecia, tudo absorvia, especialmente porque passava o dia no campus.
Fundamental para essa mudança de perspectiva sobre o curso e a vida no campus foi fazer parte da ABU (Aliança Bíblica Universitária). Proporcionou-me uma nova visão do meu papel ali na USP, uma nova visão do meu papel social (junto com a combativa, energética e crítica atuação política dos meus colegas de curso – a Geologia). Equilibrando-me entre o cristianismo engajado da ABU e o marxismo utópico da Geo, fui imensamente desafiado, encorajado, e preparado para a vida. Sem pieguismo, nem ceticismo exacerbados. Nem “penteca”, nem “libelu”.
O ponto alto de meu engajamento na ABU se deu com a descoberta do compromisso político e social cristão com os pobres. A organização de um projeto social composto por estudantes universitários para apoiar a comunidade carente de Capriotti (em Carapicuíba) foi o aprendizado prático e afetivo importante. Hoje mesmo, 30 anos depois, o projeto ainda existe, e pessoas que fizeram parte da primeira equipe universitária ainda são parte dele. E lembrar dele é perceber que ao estender a mão em solidariedade ao próximo, eu é que fui o mais beneficiado, com lembranças de pessoas e fatos que marcaram minha vida.
Sobre estes, escreverei depois.

quinta-feira, junho 08, 2006

26- DENTE QUEBRADO

Meus primos e eu gostávamos, aos 8, 9 anos de idade, de brincar de “luta” na imensa cama de minha avó. Sempre acabava com alguém machucando alguém, briga, choro, estas coisas de criança.
Pois bem, lá estávamos nós, brincando, quando um empurrão mais forte me derrubou dentro do guarda-roupa da avó, cuja porta estava aberta. Saí bufando e meu primo, esperto, escapuliu correndo pela casa, comigo no seu calcanhar. Logo ao entrar na cozinha, alcancei-o com braço em suas costas. Esse impulso, aliado à velocidade com que ele corria, foi o suficiente para que se esparramasse no chão, de boca, quebrando o dente da frente.
Na época não havia conserto, e por muitos anos seu sorriso me lembrava o que eu havia feito. Quando surgiu a tecnologia de reparadora, o alívio foi para ambos: ele pode voltar a sorrir sem problemas, e eu voltei a vê-lo sem remorso.

segunda-feira, junho 05, 2006

25- MACNUT

Nos idos da década de 80, comecei a me interessar pelo mundo dos computadores. Anunciavam o breve surgimento de micro-computadores, pequenos o suficiente para se ter no escritório, potentes o bastante para aposentar a calculadora, o arquivo de gavetas e a máquina de escrever. Quando finalmente surgiram, comecei a ler tudo o que podia sobre eles, e até comprei livros. Logo, o Basic, o DOS, o C:, o Lótus, e o DBase começaram a fazer parte do meu mundo. Mas não o computador. Além de caros, necessitavam conhecimentos que eu não possuía e minhas atividades profissionais na época não exigiam coisa tão sofisticada.No fim da década fui aos EUA a trabalho e tive contato com o Macintosh da Apple, o “computador à prova de idiotas”. Para se trabalhar com ele não era necessário conhecer a linguagem de computador, nem saber os princípios da programação como eram os computadores da época. Convivi 40 dias com um Mac e fiquei embevecido com as possibilidades. Era tão avançado em comparação com os enormes e lentos PC da época, que dizia-se que quem conhecia um Mac tornava-se fã: doido por ele (“Macnut”) Só não trouxe um pra cá porque a alfândega não permitia. Mas, junto com um amigo, conseguimos que um americano nos trouxesse um modelo “Classic”. Dividimos o custo meio a meio, e quando o americano chegou, fui buscar o Mac no Rio de Janeiro, de ônibus! A sensação que tive ao ligá-lo em casa foi a de ser proprietário de uma nave intergaláctica. Hoje, o “Classic” provocaria risos com seu monitor monocromático, ausência de CD, som estéreo, etc. Mas, quer saber, ainda sinto saudades do bichinho, nunca dava pau, era veloz e muito, muito simples de manusear. E por mais que digam que as diferenças hoje são mínimas entre um PC e um Apple, ainda sinto vontade de voltar a pilotar um. Quem sabe, um dia...